Haroldo de Campos muito além da plataforma concretista
Coletânea de ensaios inéditos em livro mostra amplidão de interesses de Haroldo de Campos
É bem conhecida a afirmação de Nietzsche sobre a utilidade do esquecimento. Sem ele, diz sua formulação, nossa memória seria sobrecarregada de datas, nomes e fatos ociosos. Mas o filósofo dos bigodes pensava em termos de Europa. Se ele soubesse do Brasil, verificaria que por aqui sua advertência seria redundante. Os trópicos não costumam cultivar a memória. Considerando portanto a (im)propriedade da memória nacional, seria inexplicável que as obras de Haroldo de Campos continuem a estar nas grandes livrarias caso desconhecêssemos o empenho conjunto de sua viúva e de seu filho, junto à presença da instituição pública paulista Casa das Rosas — aqueles têm-se encarregado de reunir o espólio de Haroldo, e esta, de publicizá-lo. O segundo arco-íris branco, (Iluminuras, 288 pp., R$ 47) faz parte deste esforço conjunto. Lançado por uma editora pequena, a Iluminuras, que escolhe seu acervo com extremo cuidado, o livro é apresentado por Davi Arrigucci Jr. e prefaciado por Flora Süssekind. A participação de Arrigucci reserva a agradável surpresa de mostrar que o crítico paulista foi capaz de superar as divergências que tem manifestado quanto à poesia concreta, enquanto o prefácio de Flora confirma o interesse e a inteligência com que sempre cercou a polifacética produção de Haroldo. (Luiz Costa Lima é professor de Literatura Comparada da Uerj e da PUC-Rio, autor de O controle do imaginário & a afirmação do romance (Companhia das Letras), entre outros livros)
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