Dilemas da edição póstuma
Dois inéditos de Vergílio Ferreira são publicados em Portugal
Eça de Queirós achava que se deviam publicar de um homem célebre até as “contas do alfaiate”. Quem conta isso é o escritor Vergílio Ferreira [1916-96] num dos volumes dos seus diários, Conta-Corrente. Está a falar de uma discussão que teve com a sua mulher, Regina Kasprzykowski, a propósito da publicação do romance inédito de Eça de Queirós A tragédia da Rua das Flores. Discutiam os dois se é lícito ou não publicar-se o que um autor rejeitou. Para Vergílio Ferreira, “um autor não dá garantias quase nenhumas (mormente quando grande autor) sobre a valia do que realiza. E não há obra medíocre alguma de um autor que lhe destrua a obra superior”. Em Portugal, anda a discutir-se o tema. Por estas semanas, chegaram às livrarias dois inéditos do autor de Para sempre, editados pela Quetzal: uma novela (A curva de uma vida, 1938, a primeira história que escreveu) e um romance (Promessa, de 1947). É um acontecimento. Passados tantos anos depois da publicação de Cartas a Sandra, o último romance do Prêmio Camões 1992, já saíram do seu espólio um Diário inédito e essas duas obras. Promessa, que teve como primeiro título Sequência, é o único romance inédito completo que existe no espólio. A decisão de o trazer a público não foi fácil de tomar para a equipa de investigadores e professores, que está a estudar, catalogar e anotar a sua obra. No seu diário, Vergílio Ferreira escreveu: “Saber como se errou, progrediu, hesitou – tudo são modos de ampliar o conhecimento de um autor. De qualquer modo, se um artista não quer que se lhe conheça a obra, destrua-a ele.” E Vergílio Ferreira não destruiu a sua.
Leia Também
Gostou deste conteúdo?
Receba análises exclusivas como esta toda semana no seu email
Toda segunda e quinta
