“A internet não significa ameaça”
Juan Luis Cebrián fez do jornal espanhol símbolo da luta contra o franquismo. Hoje, em novo livro, fala em salvar o jornalismo
“Não contem para minha mãe que sou jornalista. Prefiro que ela continue pensando que toco piano num bordel”. Engraçado até que é, mas o ditado popular espanhol tem lá um quê de nostalgia, além de nos contar sobre o estado de espírito de uma das grandes grifes do jornalismo do século 20. Juan Luis Cebrián, fundador e primeiro diretor do El País, este que é um dos melhores e mais importantes diários do mundo, não hesita em apelar para o humor quando se trata de refletir sobre o futuro da imprensa. Combina tiradas irônicas com raciocínios minuciosos e previsões realistas. “Isso aqui? Diga adiós…”, brada, esgrimindo no ar um exemplar do jornal que se transformou no símbolo da transição democrática espanhola e na pá de cal do franquismo. Mesmo golpeando a entrevistadora na alma, Cebrián avança com seu arsenal de argumentos para explicar por que teremos de aceitar que jornais impressos, tal como os conhecemos hoje, são típicos produtos da Revolução Industrial e, queiramos ou não, já fomos transferidos para um outro tempo pela Revolução Digital. Esta conversa de altas emoções aconteceu há uma semana, em São Paulo, por onde Cebrián passou para lançar o livro O Pianista no Bordel (Objetiva, 168 pp., R$ 36,90 – Trad. Eliana Aguiar), conjunto de dez reflexões sobre jornalismo, democracia e solavancos tecnológicos. Histórias a perder de vista temperam as páginas de O Pianista no Bordel, ao mesmo tempo em que demonstram o esforço extremo de um homem de imprensa que em breve completará 66 anos, ainda apaixonado pelo cheiro da tinta e do papel, mas compelido a adaptar-se às tecnologias. Cebrián parece preparado para tudo, inclusive receber romances pelo celular.
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