Publicidade
Voltar CLIPPING

Como fazer biografias no Brasil?

09 de abril de 2010
2 min de leitura

Bons textos vêm sendo descartados por questões não literárias, nem sequer mercadológicas, como demandas judiciais.

Em princípio este artigo deveria ser escrito há pelo menos três anos. Na época, no calor dos debates que se seguiram à censura e à posterior retirada de circulação da biografia Roberto Carlos em Detalhes, de Paulo César de Araújo, passei a tomar notas sobre situações similares. Em tempo recorde, o caderno e a pasta de recortes foram preenchidos em velocidade vertiginosa por uma espécie de epidemia. Depois do livro de Araújo, seguiu-se a supressão de parte do conteúdo da autobiografia do executivo do mercado fonográfico André Midani, por causa de uma referência pouco elogiosa da obra a um personagem secundário. Mesmo tratando da morte de Euclides da Cunha, em 1909, a historiadora Mary Del Priore, autora de Matar para não Morrer, foi aconselhada por netos de personagens retratados a não publicar a obra. Enquanto isso, passava a circular entre diversos editores uma correspondência no mínimo constrangedora da quarta das cinco mulheres de Raul Seixas, Kika Seixas, que dizia: “Qualquer tentativa de utilização do nome e imagem do falecido será contestada sob pena de medidas judiciais cabíveis uma vez que não houve autorização prévia da herdeira” (sic). O interesse pelo privado transformou o relato biográfico em um dos gêneros mais pujantes do nosso mercado editorial. Fantasiando cifras, alimentadas pelas notas e chamadas publicitárias com que o mercado anuncia seus sucessos, não demorou para que novos interessados passassem a participar da relação autor/editor: biografados, seus herdeiros e advogados.

Compartilhar:

Leia Também

Gostou deste conteúdo?

Receba análises exclusivas como esta toda semana no seu email

Toda segunda e quinta
Publicidade