Ginzburg constrói narrativa complexa, dinâmica e crítica
Romance revê o fascismo pelo olhar de uma família simples e genuína
O pai que chamava a todos de “burros” e que dizia que todas as conversas eram “parvoíces”. A mãe que gostava da ópera “Lohengrin”, de Verlaine, e que à noite, à mesa, sempre recitava um poema em favor dos desabrigados de uma enchente. A avó que se casou com um homem que considerava distinto, por causa da maneira como ele pronunciava o “r” e o “e”. O hábito, de todos os familiares, de escreverem pequenos poemas, para qualquer ocasião banal. As brincadeiras, as brigas, as canções, o estudo de línguas, mas, sobretudo as palavras e expressões que se repetiam durante a infância e a adolescência de Natalia Ginzburg é que são o fio condutor do romance Léxico familiar (Cosac Naify, 240 pp., R$ 59 – Trad. Homero de Freitas Andrade). Palavras que se depositam lentamente no imaginário de uma família e vão construindo um espaço e um tempo de memória comum. Amiga do poeta Cesare Pavese e do editor Einaudi, mãe do historiador Carlo Ginzburg e membro de uma família em que todos eram ativistas implacáveis contra Mussolini – sua mãe saía todos os dias à rua na esperança de ouvir a notícia da morte do ditador -, Natalia Ginzburg consegue, a partir de quase nada, criar uma narrativa complexa, dinâmica e crítica.
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