Kawabata narra a vida em tom menor
Em O som da montanha, do Nobel de Literatura em 1968, o mundo tem pouco a oferecer aos personagens
Um homem sexagenário está em silêncio, alheio ao convívio da família. Tira o
chapéu da cabeça, como se lhe atrapalhasse o pensamento. Parece concentrado num intrincado raciocínio, mas tenta apenas lembrar o nome da empregada demitida dias antes. Logo na primeira cena, O som da montanha (Estação Liberdade, 244 pp., R$ 53 – Trad. Meiko Shimon), de Yasunari Kawabata, revela um protagonista entregue à reflexão, para quem a luta pela preservação da memória funciona como escudo contra a passagem do tempo e uma realidade pouco animadora. Shingo se casou por piedade com a irmã de sua paixão da juventude e teve um casal de filhos com ela. A partir dessas relações familiares e da convivência de três gerações na mesma casa, o ganhador do Nobel de Literatura em 1968, costura um enredo de movimentos mínimos e personagens entediados, que parecem nutrir poucas expectativas em relação ao mundo e afeia si próprios.
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