Idioma dos desusos
Poema “Agora” define livro de Marcelo Tápia, Valor de uso
No poema “Agora”, que abre Valor de uso (Annablume, 90 pp., R$ 20), de Marcelo Tápia, lemos os seguintes versos: “o inútil/ tem uso// passado/ e futuro// agora é só// o hiato imediato/ do desuso// para um velho/ momento único”. Apresentado como “poema-epígrafe”, ele define o livro desse escritor que, depois de publicar O bagatelista, Rótulo e Pedra volátil, nos anos 80 e 90, esteve atuante como coordenador da versão paulistana do Bloomsday (o evento mundial em homenagem ao irlandês James Joyce) e diretor da Casa Guilherme de Almeida. Em sintonia com o título do livro, o poema traz uma singular combinação de reflexão crítica e formalização poética. O verso “agora é só”, isolado entre quatro dísticos, é ele mesmo “o hiato imediato do desuso”, a expressão pontual daquilo que não tem uso e, portanto, não pode se converter em mercadoria, mas que guarda um valor inalienável como fato de cultura e promessa de redenção do “momento único”, daquele “aqui e agora” que escapa da reprodução.
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