A neutralidade de um cadáver
No livro A passagem tensa dos corpos, o escritor mineiro ironiza a morte ao dar à linguagem um papel central na narrativa
Ninguém vive sem um bom morto, diz o narrador do livro. Em sua estreia no romance, Carlos de Brito e Mello cria um personagem insólito em A passagem tensa dos corpos: incorpóreo (Companhia das Letras, 248 pp., R$ 43). Resta-lhe somente a língua que se divide em devorar restos de comida e registrar oralmente óbitos infindáveis. Em uma cidade do interior de Minas Gerais, o narrador personagem se vê em uma estranha situação. Alguém morre, mas o corpo não é enterrado por seus familiares. Como se nada tivesse acontecido, o cadáver é mantido amarrado à cadeira na mesa da sala, enquanto a mãe e a filha, genericamente assim chamadas, se ocupam dos preparativos para um casamento sem noivo e ignoram um filho problemático trancado no quarto. Inquieto, o irônico narrador percebe que para existir de fato ele precisa se apropriar da linguagem.
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