Livro guarda semelhanças com Macunaíma
Do mesmo período, obras mostram sociedades rasgadas pela opressão e autores modernistas de crítica social ácida
Mário de Andrade escreveu Macunaíma ao longo de cinco dias, em 1927. O livro foi publicado em 1928. Mikhail Afanassievich Bulgákov escreveu O mestre e a margarida (Alfaguara, 456 pp., R$ 59,90 – Trad. Zoia Prestes) ao longo de 11 anos, de 1929 a 1940, em Moscou. Não haveria, portanto, como um autor ter lido o outro, a não ser que o russo lesse português, algo improvável. Mesmo assim – e mais ainda por causa disso – as semelhanças entre os dois romances são impressionantes. O mestre e a margarida, em nova tradução após mais de uma década, narra a aparição do diabo em Moscou, durante os piores anos do stalinismo. É claro que o diabo e seu séquito são de longe mais malignos que nosso pobre Macunaíma, cujas maldades não passam de diatribes inofensivas. Mas a malandragem, o humor, o ritmo vertiginoso, em forma de mosaico, as alternâncias narrativas, o artista como um aproveitador da burocracia, a denúncia – através do mal – de males ainda maiores, como a hipocrisia social e o culto à aparência são semelhanças gritantes demais.
Leia Também
Gostou deste conteúdo?
Receba análises exclusivas como esta toda semana no seu email
Toda segunda e quinta
