Diário do pároco da arte erótica
Egon Schiele relata, em Na prisão, como descobriu que Deus e seu ofício eram a mesma entidade
Um ano antes de ser recolhido ao presídio de Neulengbach, Áustria, em abril de 1912, acusado de sequestro, sedução de menores e difusão de imagens pornográficas, o artista austríaco Egon Schiele (1890-1918) pintava inocentes paisagens outonais daquela pequena e isolada cidadezinha a 35 quilômetros de Viena. Nenhum desses trabalhos, garante o biógrafo Frank Whitford, consegue nos persuadir a pensar em Schiele como um artista que tirava da natureza sua inspiração. Ele teria sido, acima de tudo, um pintor urbano, interessado em seres humanos. Mais particularmente, em ninfetas. Esse foi seu crime. Por causa delas, passou 24 dias na prisão, teve desenhos apreendidos e um deles queimado pelo juiz durante o inquérito, foi humilhado por carcereiros, viveu entre os próprios excrementos, respirou sufocantes odores e ficou incomunicável por dias, usando a saliva para desenhar no cimento da cela. É essa experiência que ele conta no livro Na prisão (Luzes no Asfalto, 90 pp., R$ 47 – Trad. Cláudia Abeling). Nem tudo é verdade em seu diário. Seu depoimento é cheio de autocomiseração, omissões e, possivelmente, uma ou duas mentiras.
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