À procura de Clarice
O americano Benjamin Moser constrói biografia em torno dos mistérios da autora de A paixão segundo G.H., evitando sensacionalismo
Uma amiga perguntou a Clarice Lispector, que acabava de chegar de uma viagem ao Egito, o que ela achara da Esfinge de Gizé. Sempre mortal em suas respostas, Clarice respondeu: “Não a decifrei, mas ela também não me decifrou”. Logo após sua morte, em dezembro de 1977, esforçando-se para retratá-la, o poeta Carlos Drummond de Andrade resumiu assim: “Clarice veio de um mistério, partiu para outro”. Sempre aborrecida com a fama de mulher misteriosa, a própria Clarice esclareceu certa vez: “Meu mistério é não ter mistério”. Clarice foi uma estrangeira, não por ter nascido na Ucrânia, mas porque “era uma estrangeira na Terra”, resume o biógrafo americano Benjamin Moser, autor de Clarice, – lê-se Clarice vírgula (Cosac Naify, 648 pp., R$ 79 – Trad.: José Geraldo Couto). Estava deslocada não só do mundo, mas de si mesma. A escritora – que vem ganhando nos últimos meses várias homenagens em forma de seminários, círculos de leitura, espetáculos teatrais e edições diferenciadas de sua obra – foi chamada, muitas vezes, mesmo por ilustres críticos literários, de alienada, cerebral, instintiva e tediosa.
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