O medo que não quer calar
A morte é o tema abordado em obra de Julian Barnes
A melhor maneira de enfrentar um problema é falar sobre ele – eis uma “verdade” que o senso comum consagrou bem antes da psicanálise. Julian Barnes não acredita nela, pelo menos não como escritor, e repudia a “falácia da autobiografia terapêutica”. Nem por isso recuou diante da ideia de escrever um livro sobre a morte – Nada a Temer (Rocco, 256 pp., R$ 38 – Trad.: Léa Viveiros de Castro) -, o pior dos medos – ou “a emoção mais intensa de todas”, nas palavras de um amigo que o venceu na competição de tanatofobia. Barnes fantasia um diálogo com um médico. Diante da notícia da morte eminente, ele negocia um certo número de páginas para ter tempo de escrever o último livro. Faz sentido, uma vez que a morte é algo definitivo. Mas essa é outra falácia, diz Barnes, desconfiado de que o medo nunca desaparece: “Deus pode estar morto, mas a morte está bem viva.” Barnes trata das doenças terminais, da existência ou não de Deus e da vida eterna, até dos epitáfios e últimas palavras, mas a questão principal trata da melhor maneira de encarar a morte. Ignorar não parece bom; mantê-la sempre em mente, muito menos. O livro não é autobiografia nem um trabalho de prospecção exaustiva das ideias e fatos sobre o assunto. É um ensaio, e Montaigne é apropriadamente um dos autores mais citados.
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