Moedor de carne da memória
Lembranças de Nelson Rodrigues inauguram um momento importante na trajetória do autor: o discurso acerca da própria obra
Em 1967, aos 54 anos de idade, Nelson Rodrigues começa a oferecer aos leitores do Diário da Manhã suas memórias. A coluna saía diariamente e foi publicada entre os dias 16 de fevereiro e 31 de maio daquele ano. Assim nascia o Nelson Rodrigues memorialista, a desfiar, em primeira pessoa, suas lembranças, mágoas e obsessões. Foram exatamente 80 capítulos que seriam, no mesmo ano, parcialmente republicados no livro Memórias: a menina sem estrela (Agir, 456 pp., R$ 69,90), que agora retorna às livrarias. Há um contraste entre o homem recém-entrado na idade madura e a escrita memorialística, que costuma nos remeter a um velho no fim da vida. A escrita de Nelson Rodrigues é de um homem ativo, porém. Talvez seja o postular-se como velho que faça possível tal escrita; o narrador diz ter vivido outro tempo, o do “Rio dos lampiões e da febre amarela, dos bondes e dos enterros residenciais”. Tais cenários se alternaram com o cotidiano mais urbano de meados do século 20, em que são escritas as crônicas. E crônicas porque o livro, apesar de estar organizado por capítulos, tem a pulsação e a urgência da escrita do cronista.
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