O álibi autobiográfico
Autora se sente livre para falar de si mesmo como objeto incondicional de admiração
A americana Gertrude Stein (1874-1946) é um desses casos não tão raros de autores que são muito mais conhecidos como personagens do que como escritores. Vivendo desde 1903 na França e convivendo com alguns dos mais importantes artistas do século 20, durante anos ela fez de sua casa em Paris um salão de efervescência intelectual. Além disso, ficou célebre também por manter até o fim da vida uma relação amorosa com sua conterrânea Alice B. Toklas (1877-1967). No caso de Gertrude Stein, o peso biográfico acabou por criar uma mitologia que oculta a obra – ou, talvez mais precisamente, em que se oculta a obra. A autobiografia de Alice B. Toklas (Cosac Naify, 288 pp., R$ 59 – Trad.: José Rubens Siqueira), assinada por Gertrude Stein, recém-lançada entre nós com posfácio de Silviano Santiago, reforça propositalmente essa neblina entre obra e personagem, numa rede complexa de estratégias romanescas. A ironia do título, uma autobiografia escrita por um outro, é também o “crime perfeito” da narração, o álibi do autor, comenta a coluna Rodapé Literário.
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