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O ornitorrinco e a agente literária

09 de março de 2014
2 min de leitura

Escritor J.P. Cuenca responde Luciana Villas-Boas. A agente apontou a obsessão do autor nacional em obter projeção no exterior

Foi numa sala de embarque que li “A tradução, essa faminta quimeral?”, artigo de Luciana Villas-Boas. Estava nos EUA para divulgar a tradução de um romance. A agente literária começa seu artigo com uma assertiva meio grosseira: “O autor brasileiro é vidrado numa tradução”. Depois dá a dica que poderia explicar nossa estranha obsessão, mas deixa a ponta meio solta. O autor brasileiro não é vidrado numa tradução por “cultivar o sonho colonizado e aprisionador do ‘sucesso no Primeiro Mundo'”, como o texto diz. Ele é vidrado numa tradução porque quer ser lido. E porque nasceu num país que tem lido muito pouco literatura contemporânea. O editor e escritor Paulo Roberto Pires, num seminário, terminou seu panorama sobre a literatura brasileira contemporânea com uma imagem arrasadora: “O crítico marxista Francisco de Oliveira definiu o capitalismo brasileiro como um ornitorrinco, aquele estranho animal que é ao mesmo tempo da terra e da água, mamífero e ovíparo, uma exceção eterna no conceito da evolução das espécies. Eu acho que é uma boa metáfora para pensar a literatura brasileira hoje. Nós somos ornitorrincos literários: temos público, mas não temos leitores, nós viajamos ao redor do mundo, mas não temos reconhecimento no nosso país. Nós somos, mesmo contra a nossa vontade, um espelho do nosso país”. O ornitorrinco não tem culpa de ser ornitorrinco, Luciana. Libertemos o escritor brasileiro de mais essa.

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