A esquerda não sonha mais?
A esquerda brasileira repete os mesmos erros da direita, elaborando suas plataformas de forma autoritária e autocentrada. No caso da cultura, isso é patente
Há pouco acompanhei, aturdido, a polêmica em torno de uma proposta de “traduzir” clássicos da literatura brasileira para torná-los mais acessíveis aos leitores. “Quero livros nas casas dos mais simples”, argumentou a autora do projeto, que distribuirá gratuitamente 600 mil exemplares, em linguagem facilitada, de O alienista, de Machado de Assis, e de A pata da gazela, de José de Alencar. O que me preocupa é a visão distópica que alicerça a convicção de Patrícia Secco e de seus apoiadores, e que alimenta o discurso da esquerda brasileira. Ela afirma que, por causa do vocabulário, considerado difícil, os jovens não gostam de Machado de Assis, o que é fato. Então, ao invés de sugerir mudanças no sistema educacional, visando à melhoria do nível dos alunos, Patrícia e seus apoiadores propõem “descomplicar” o texto do autor. Ou seja, o problema não está no nosso péssimo sistema de ensino, que historicamente vem sendo o instrumento mais eficaz de manutenção das desigualdades sociais, mas no escritor que utiliza palavras por demais sofisticadas.
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