Política dá o tom à abertura da Feira Internacional do Livro de Buenos Aires
Argentina vive um ano eleitoral decisivo na sua história política. Esse clima contaminou a cerimônia de abertura da Feira.
Buenos Aires respira política. Não raro, em cada esquina, caminhões de som fazem barulho a favor deste ou daquele candidato. É que nesse ano tem eleições para escolha de prefeito a presidente da República. E, claro, toda essa efervescência chegou à Feira do Livro que foi aberta oficialmente na noite desta quinta-feira (23). As eleições marcarão o fim de um período de poder dos Kirchners. Nestor Kirchner e Cristina Fernandes, sua viúva, governaram o país nos últimos doze anos. A política kirchnerista na área da cultura, apesar de controversa e questionada, tem lá seus admiradores. É o caso do jornalista e dramaturgo Roberto Tito Cossa, que proferiu o discurso de abertura da feira na noite de ontem. Entre aplausos e vaias, Tito defendeu o kirchnerismo: “é um momento de mudanças na Argentina. Se vai um governo que potencializou a indústria do cinema, que levou a cultura a um status de ministério. Muitos de nosso mundo sentimos que pela primeira vez estamos sendo escutados. Talvez sejam os ouvidos femininos”, disse o autor em clara referência à presidenta. “Esperamos que quem governo a partir do próximo ano siga com esta política. A cultura não pode estar nas mãos das leis do mercado, não é uma mercadoria”, insistiu.
Minutos antes, o ministro da Educação, Alberto Sileoni já tinha ressaltado os feitos da pasta em favor da indústria editorial: “fizemos 1800 escolas, compramos 90 milhões de livros para essas escolas”. Pelos corredores da feira, o que se ouve é que a participação do governo é fundamental para o mercado editorial argentino, mas que não há nada que garanta que as compras governamentais se manterão. Não há um instrumento legal que garanta a continuidade dos programas de bibliotecas. Para Fernando Zambra, da Promage, empresa de consultoria que monitora o mercado editorial argentino, as compras governamentais hoje representam cerca de 25% do tamanho total da indústria. Apesar dos elogios, Tito Cossa também fez um senão às compras de governo: “O governo compensa os autores argentinos comprando milhares de exemplares. Mas isso não é suficiente. Não basta colocar os livros nas estantes. Os alunos estão mesmo lendo esses livros?”, questionou. Quem também ficou na política do morde-assopra foi o presidente da Fundação El-Libro, organizadora da feira. Em seu discurso, Martín Gremmelspache ressaltou a importância das compras governamentais que, nas palavras dele, “potencializou a bibliodiversidade e permitiu um fortalecimento do setor editorial e gráfico”. Mas assinalou também as dificuldades que vive hoje o setor editorial e livreiro no país, “com uma diminuição importante na sua rentabilidade por uma complicada estagnação das vendas”. Para isso, reinvindicou a incorporação do setor ao Ahora 12, programa federal de fomento ao consumo e à produção. “Isso poderia ser uma importante ajuda, que poderia solucionar a questão da rentabilidade livreira”.
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