Faça igual
Gustavo Martins de Almeida dedica sua coluna à edição fac-similar e analisa, a partir de exemplos, as possibilidades desse tipo de edição
A Palavra composta “fac-símile” (não deixe de consultar o VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras) significa exatamente o título desse artigo; “Faça igual”. Esse conceito é utilizado para denominar, dentre outros, o tipo de edição de livros que reproduz integralmente outra edição, e mantém seu status de importância, na medida em que edições raras, ou incomuns, constituem objeto de desejo de bibliófilos.
Em conceito obtido na internet (desculpem) pode-se dizer, em tradução livre, que “uma edição fac-símile é a reprodução de fotomecânica de um modelo único, praticamente bidimensional; isso elimina o trabalho de cópia de manual o máximo possível, reflete para o mais alto grau os aspectos internos e externos do original, incorpora todos os possíveis meios técnicos disponíveis, garante a proteção e preservação do original e é apropriado para interesses científicos e artísticos. Um fac-símile pode servir como um verdadeiro substituto do original para fins de investigação e de bibliófilos”.
Para não estender muito o campo de pesquisa, faço referência à primorosa edição fac-similar de Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco, publicada por Lello & Irmão-Editores e pelo Real Gabinete Português de Leitura, em 1983. Ali, lado a lado, página a página, foram impressos o manuscrito da obra e uma edição crítica sob a direção de Maximiano de Carvalho e Silva. É um volume primoroso, de 645 páginas, onde aparecem rabiscos, hesitações, reparos e emendas do autor, reproduzindo seu trabalho intelectual.
Outras tantas, como a dos Lusíadas, exposta na comemoração do Quarto Centenário da 1ª edição da obra, também no Real Gabinete, no Rio de Janeiro (ver exemplos aqui) vão sendo mais facilmente lançadas graças aos novos recursos tecnológicos, que aprimoram a sensação e manuseio do original.
Existem, porém, fatos curiosos, que por sua originalidade, acabam valorizando essa ou aquela edição. E aqui faço referência à belíssima obra de autoria de Gilberto Ferrez (veja fotos ao lado) e concebida por Raymundo de Castro Maya A muito leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro lançada no ano de 1965, comemorativo do Quarto Centenário da cidade, e reeditada esse ano de 2015, em edição fac-similar, em formato reduzido, para comemorar os seus 450 anos. Embora alguém tenha questionado o formato reduzido como supressor do caráter fac similar, esse não é o ponto peculiar.Na edição original consta que foram publicados 100 exemplares numerados em algarismos romanos de I a C, fora do comércio, destinados a Comissão Organizadora e colaboradores e mais mil em numeração arábica, e que as matrizes da obra “foram destruídas”.
Pois o fato curioso é que a matriz dessa edição fac similar é o exemplar número LX da primeira tiragem. Logo, o fac-símile na verdade é de um exemplar da edição, que certamente ficou mais valorizado, por ser o original.
O fato é que com a internet as edições fac-similares digitais se multiplicam aos milhares, e as máquinas de escaneamento de livros raros são reproduzidas de modo a “manusear” as obras com cuidado, rapidez e obtenão de imagens perfeitas (veja o vídeo abaixo como exemplo). A ABNT tem norma específica sobre publicações e numa delas existe referência a edição fac-similar.
A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin na prática traz reproduções fac-similares em meio digital. Não é possível o real manuseio do livro, e sim o folhear digital, mas se há um ponto positivo na internet e novas tecnologias editoriais, este é o acesso a edições raras por infinito número de pessoas. Ainda assim, gosto do cheiro de “papel velho” do meu escritório de casa, que convive muito bem com leitores digitais e outras inovações.
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