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Du Moscovis expõe de forma assustadora e comovente o lado sombrio do ser humano

24 de março de 2026
3 min de leitura
Du Moscovis em cena © Divulgação
Du Moscovis em cena © Divulgação

Na peça 'O motociclista no globo da morte', ator vive um professor de matemática aparentemente racional, pacífico, que costuma ter empatia pelas pessoas e se afasta de qualquer ato violento

Sem anúncio de que a peça O motociclista no globo da morte vai começar, Du Moscovis entra no palco, senta-se numa cadeira e conta sua história. Ele impressiona pelo silêncio, pela contenção dos gestos e praticamente ausência de cenário. Apresenta-se como Antônio. Na cadeira, de frente para a plateia, antecipa um crime, como em um banco de réu. Não há nada na sua história que o aproxime de práticas violentas, ao contrário, ele é um professor de matemática, racional, pacífico, que costuma ter empatia pelas pessoas e se afasta de qualquer ato violento. Mas nada disso o impediu de revelar seu lado mais sombrio e cometer um crime brutal.

A iluminação contida que oscila entre luz e sombra instaura o tom da peça que tem direção de Rodrigo Portella. O relato de Antônio é fragmentado, trazendo trechos do seu passado (como a cena comovente em que narra Antônio criança, aos quatro anos, diante da TV vendo animais serem mortos violentamente e tem uma crise emocional), presente e futuro, quando finalmente revela o crime que cometeu.

A performance e dramaticidade de Du Moscovis é surpreendente, porque não há cenário para embelezar a atuação. São sua voz, gestos, expressões e silêncios que mantêm a plateia de olho vidrado até o fim do espetáculo. O ator, que já fez outros papéis ligados ao humor, evidencia sua multiplicidade e entrega visceralidade no drama.

Num determinado momento, ele narra a crueldade de modo tão verdadeiro que consegui vê-lo batendo o rosto de Antônio, o homem que mata tem seu próprio nome, no asfalto até que ele se transforme em uma massa amorfa. Ele, que não era capaz de matar uma mosca, revela-nos que o ser humano – e qualquer ser humano – há um lado sóbrio dentro de si, com potência de violência e que pode ir até as últimas consequências. Todos nós podemos nos tornar Antônio e isso é o mais assustador.

A temporada está nas últimas semanas e o ator revela que, após conversar com o público ao final do espetáculo, sua grande maioria confessa que faria o mesmo que Antônio diante daquela situação, que também seria capaz de ser impelido pela raiva irracional e cometer aquele ato brutal.

A peça é incômoda. Todo o relato de Antônio é angustiante, mas o seu silêncio é ainda maior. E, nós, espectadores preenchemos essas lacunas com nossas próprias dores, memórias, suposições e especulações. Sem dúvidas, é uma peça que nos tira do automático e é exatamente por isso que a arte existe.

O conto de Leonardo Netto dá substância para esse texto, que ganha potência em dramaturgia no formato de monólogo, e mostra a relevância do diálogo entre literatura e teatro. A publicação impressa de O motociclista no globo da morte será vendida apenas no Teatro Vivo (R$ 50), mas em breve o texto também estará disponível em versão online.

Serviços:

Local: Teatro Vivo – Av. Doutor Chucri Zaidan, 2460 – Morumbi, São Paulo/SP

Temporada: 20 de março a 29 de março de 2026 (2 últimas semanas da temporada)

Horários: Sexta e Sábado, às 20h | Domingo, às 18h

Classificação indicativa: 14 anos

Duração: 60 minutos

Capacidade: 274 lugares

Bilheteria: (11) 3430-1524 (nos dias de peça, 2h antes da apresentação)

Ingressos: 150,00 (inteira) | 75,00 (meia)

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Vanessa Passos
Vanessa Passos

Vanessa Passos é escritora, roteirista, professora de escrita criativa, doutora em Literatura (UFC) e pós-doutora em Escrita Criativa (PUCRS), sob orientação de Luiz Antonio de Ass...

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