(Não) é a economia, editor!
O livro vai mal, e vai ficar igual se a gente não pensar diferente
O
livro não subiu enquanto o Brasil dava um salto; o livro despencou quando o
Brasil caiu. Vendiam-se poucos livros quando o preço de capa estava alto;
vendem-se menos ainda quando o preço é mais baixo. Não há nem vagalumes no fim
do túnel editorial de acordo com os dados encarados na manhã de quarta,
analisando o mercado do livro 2006 a 2015, a “
década perdida”. O panorama estatístico, corrigido pela inflação e cotejado com
o PIB, mostrou, entre outros, que o segmento de obras gerais (que inclui aquele
livro na sua cabeceira), faturou em 2015 apenas 60% do que faturava em 2006.
Tirando um espasmo por volta de 2009, o movimento nestes 10 anos foi (e ainda
é) de queda livre (23% só no biênio passado).
A derrocada no faturamento ocorreu
mesmo com o aumento no número de exemplares impressos, o que demonstra o apego
dos editores pelos encalhes e por uma economia
wishful thinking, onde um aumento da oferta teria poder de aumentar
a demanda. Pela mesma lógica do autoengano, advoga-se que a fixação (no alto)
no preço do livro vai atrair mais leitores,
mesmo que por decreto.
Falando pelo Sindicato Nacional dos
Editores de Livros (SNEL), Marcos Pereira desabafou: “Hoje, os donos das
livrarias estão me dizendo para aumentar os preços. Eles também sofreram com a
inflação, reajuste de aluguel, salários. É difícil convencer a sociedade que o
preço fixo pode ser bom para ela”. Sim, é difícil. Mais difícil ainda é fechar
uma equação em que preços mais altos (e fixos) façam aumentar o faturamento de
modo a compensar a perda por elasticidade (em outras palavras, a perda dos
leitores que também sofreram com inflação e que vão trocar os livros caros por,
sei lá, caçar pokémons).
A equação não fecha, e nem acho que devemos encarar isso como um problema econômico. O setor de bens de consumo, ou o financeiro, vão para onde for a economia. Nosso setor, o cultural, é mais afetado para onde vai… a cultura.
Estamos passando por
um grande câmbio cultural e não há contas ou decretos que deem jeito na
economia do livro, se estes se propuserem a manter as coisas do jeito que estão
(ou estavam). A cultura mudou, os leitores mudaram. Resta aos editores e
livreiros decidirem se ficam para trás, ou se aproveitam as mudanças. Segundo
alguém que entende da história do livro,
“A mudança mais óbvia
é a tecnológica. A internet transformou o modo como os livros são produzidos,
vendidos e lidos. As mudanças que começaram em 1991, com o desenvolvimento da
internet, são tão grandiosas quanto às da Era Gutenberg. E elas continuam. Não
é exagero dizer que o mundo do livro está passando por sua maior transformação
em 500 anos. É excitante e
ameaçador para profissionais do livro, mas, para mim, é um tempo
de grandes oportunidades”.
Segundo Robert Darnton, “as editoras não estão perdendo dinheiro porque essas pessoas [nativos digitais] não compravam livros. O público leitor está crescendo graças ao livro
digital.” Pode-se discutir a
quantidade, e mesmo a
qualidade, dos leitores, mas não pode-se contestar que em
nenhuma época se escreveu, e se leu, tanto. A prova está neste artigo, assim
como as dezenas de posts, emails e textos que você vai ler ou percrustar antes
mesmo do almoço, na sua mesa de trabalho ou no objeto retangular que você leva no bolso e que o mantém conectado.
Um desavisado que
consultar a lista de mais vendidos pode estranhar a profusão de blogueiros e
outras
personalidades geradas nas profundezas caóticas da internet. E, se este desavisado for também desconectado, talvez isso
lhe pareça, com certo desprezo, mera “cultura de massa”. O que ele não vê é que
já não é meramente a cultura “de” (ou melhor, “para”) a massa, e sim a
cultura da massa. Eis um sintoma de que os leitores já não estão mais acatando a posição,
passiva, de consumidor. Os leitores, em rede, já detêm o poder de detectar os
futuros bestsellers e de
definir o sucesso comercial dos livros publicados. Com o fenômeno dos
booktubers, o ciclo se completa e leitores tornam-se escritores.
Fundir leitor e autor
é um desejo antigo que a tecnologia (ou a filosofia) vem tentando responder. A
internet fez 25 anos e, no
primeiro browser criado por Tim Berners-Lee, já havia um botão
“edit” para que qualquer um pudesse escrever nas páginas que acessasse (o que
hoje se pode fazer apenas nos sites Wiki). Antes disso, os revolucionários como
Theodor W. Adorno olhavam torto para os “novos” meios de
comunicação que criaram consumidores passivos e [politicamente] alienados, já
que “não se
desenvolveu nenhum dispositivo de réplica”. E antes mesmo da Revolução
Industrial, Immanuel Kant (citado por
Roger Chartier) sonhava com que “cada um fosse ao mesmo tempo
leitor e autor, que emitisse juízos sobre as instituições de seu tempo,
quaisquer que elas fossem, e que, ao mesmo tempo, pudesse refletir sobre o
juízo emitido pelos outros.”
Ok, ok. Muito
bacana, muito erudito. Os leitores agora podem (e querem) participar:
selecionando, publicando, promovendo, escrevendo. Mas como isso pode
ajudar a remendar a cadeia do livro, ou mesmo a pagar as contas dos editores e
livreiros?
Não sei, mas
procuro saber. Só acho que o caminho passa mais por uma daquelas “grandes
oportunidades” de que falou o Darnton do que em tentar resolver (ou entender),
com as ferramentas de ontem, um problema de hoje. E quando ao
amanhã?
No mesmo dia em que os editores encaravam os números da “década perdida”, os
livreiros reuniram-se para pensar na “
Livraria do futuro”… mas nem tanto. Regulamentação, margens das
editoras, a velha farinha-pouca.
“Tentar ganhar da
turma da internet não é fácil não”, disse Marcus Teles, da rede Leitura.
Verdade: não é fácil ganhar da turma da internet, e nem vale a pena. Também
difícil, porém mais produtivo, seria descobrir como ganhar a turma
da internet: o leitor.
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