A ternura para vira-latas de Marcelo Mirisola
Em ‘A vida não tem cura’, romancista fala sobre amor e perversão em SP
A linguagem resgata o paulista Marcelo Mirisola de todos os
excessos de uma obra vasta que transita entre o conto, a crônica, o romance e a
dramaturgia. O autor não tem meias medidas: investe contra tudo e contra todos
e quanto mais se esforça para ser escatológico mais deixa em quem o lê com
atenção o contato com uma profunda sensação de desamparo que atravessa tanto o
escritor como o personagem. Um dos centros de A vida não tem cura (Editora 34, 88 pp, R$ 35) é a homossexualidade
masculina, tema já tratado em outras obras, mas que, neste caso, vem
acompanhado dos tormentos inimagináveis que podem se esconder numa relação a
dois entre homem e mulher. Natasha e Luís Guilherme, o protagonista, se
conheceram e se apaixonaram adolescentes. No andar da carruagem de uma relação
em que a perversão e sedução caminham de mãos dadas, começam a ultrapassar
limites. Isto inclui sexo a três com um parceiro negro a quem Natasha instiga
Luís a beijar na boca. Aquilo que se pode denominar perversão tem a sua
contrapartida não num tom moralista, mas num poço sem fundo em que Luís, ao
mesmo tempo em que repudia o corpo da mulher, vai sucumbindo à sua autoridade.
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