Em novo livro, Silviano Santiago narra últimos anos de Machado de Assis
Misto de ensaio, romance e biografia faz relações entre doença do autor e sua escrita
Com as estantes já lotadas, os livros vão se acomodando por todos os cantos do escritório de Silviano Santiago, em Ipanema. Vivendo sozinho, o crítico e escritor de 80 anos não consegue arrumar o material que vem acumulando em décadas de atividade intelectual. Em cima da escrivaninha, espalhados, alguns títulos foram consultados obsessivamente nos últimos meses: Floresta da Tijuca — Natureza e civilização, de Claudia Heynemann; As histórias das ruas do Rio, de Brasil Gerson; O álbum da Avenida Central, com fotografias de Marc Ferrez; além de uma ampla bibliografia de Machado de Assis. Neles, encontrou peças importantes para compor um duplo quebra-cabeças — o dos primeiros anos do Rio do século XX e o dos capítulos finais da vida do Bruxo do Cosme Velho, morto em 1908. Em Machado (Companhia das Letras), Silviano se debruça nos quatro últimos anos do autor de Dom Casmurro, um período relativamente desprezado por críticos, biógrafos e historiadores. Numa escrita que transita entre romance, ensaio e biografia, busca as relações entre o drama íntimo de um Machado solitário, em luto pela morte da mulher, Carolina, e castigado por problemas de saúde e pela epilepsia, e as redes de intrigas do Rio de Francisco Pereira Passos. Mas há ainda uma outra conexão: ao expor a sua pesquisa e torná-la transparente, o autor se coloca como um dos protagonistas, um narrador perdido entre seus livros, suas obsessões e suas ligações com o biografado. Coincidência curiosa (o texto é repleto delas): Silviano nasceu no mesmo dia em que Machado morreu, um 29 de setembro.
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