Livro refaz trajetória do compositor Shostakovich sob o jugo de Stalin
Leitor se depara com o protagonista à mercê do moedor de carne humana que era o Estado Soviético
Três momentos extremamente delicados da vida do compositor russo Dmitri Shostakovich (1906-1975), nos quais ele manca “cautelosamente de uma ansiedade para outra”, servem como espinha dorsal para o estupendo O ruído do tempo (Rocco, 176 pp, R$ 29,50), romance do premiado autor britânico Julian Barnes. Aqui e ali, o leitor se depara com o protagonista à mercê do moedor de carne humana que era o Estado Soviético, obrigado a silenciar ou a falar em prejuízo de outros, colocando-os em situação semelhante ou pior, ou – o que pode ser o mais terrível – a simplesmente compactuar. O primeiro dos tais momentos se dá em plena década de 1930, quando Stalin tratava de perseguir, prender, torturar e assassinar todos aqueles que julgava “subversivos” – palavra tão genérica que, no contexto de uma máquina totalitária, consegue abarcar qualquer um que desagrade ao ditador ou seja por ele antagonizado. O “crime” de Shostakovich foi compor Lady Macbeth de Mtsensk, ópera baseada na novela de Nikolai Leskov e que obteve enorme sucesso, pelo menos até que Stalin foi assisti-la e não gostou. É a senha para que a imprensa oficial (única que havia) crucifique o compositor, atacando sua obra como “apolítica e confusa”, capaz de despertar “o gosto pervertido dos burgueses com uma música inquieta e neurótica”.
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