A dor de cabeça do editor: como lidar com a incerteza em tempos de crise?
A partir de dados da Pesquisa Fipe, coletivo de editores faz uma reflexão sobre o trabalho de edição de livros
Maio vai adentrando na sua segunda metade enevoado em mistérios. A instabilidade política reina. As dificuldades econômicas persistem. Recentemente, foram divulgados pelo PublishNews os resultados da última Pesquisa Fipe, indicando, entre outras informações preocupantes, que o mercado editorial teria recuado 5,2% em 2016 se comparado ao ano anterior. E que, para piorar, o cenário de retração poderia ser ainda pior.
Vários posicionamentos se sucederam, alguns a tentar aproximar resultados de diferentes pesquisas, outros a se questionar sobre o que fazer em momento tão bicudo: contra-atacar ou retroceder à espera do fim da tempestade? Mas, e se a chuva demorar muito mais a passar?
Também veio à baila uma discussão sobre a arte de editar em tempos de crise: devem os editores investir em métodos de algum modo científicos ou mercadológicos para descobrir o que os leitores desejariam ler? Como fazer os leitores irem ao encontro dos lançamentos, uma vez que os editores não conhecem “por dentro” a cabeça deles? É possível alguma programação a partir do que está acontecendo, ou seja, transformar essa “leitura de mercado” em produto eficaz?
Mas, o que está acontecendo? E o que publicar?
A verdade é que ninguém está entendendo nada. Temos dificuldade de entender por que caminhos tortuosos vão a economia e a política, da tradicional à gestora. Temos dificuldade de entender os alimentos que comemos: são tão estudados, tão processados. São mesmo comida? Temos dificuldade de entender as pílulas que tomamos: servem para nos curar do quê? E, como os escândalos políticos, a lista de incertezas seguiria indefinidamente, causando-nos vertigem.
O mundo corporativo, do qual evidentemente fazem parte as grandes editoras ansiosas por certezas e por descobrir a cabeça dos leitores “por dentro”, assim como outras esferas — as instituições financeiras, culturais, educacionais, os hospitais, os ambientes políticos travestidos de ambientes de gestão… —, de fato não estão entendendo nada. E precisam, urgentemente, de alguma rota para seguir e ultrapassar uma sensação de mistura de excesso com inanição. Precisamos.
Um antropólogo atento aos movimentos do mundo contemporâneo, o argentino Néstor García Canclini, em seu livro mais recente, trata exatamente dessa sensação de ruidoso silêncio ou tumultuado vazio, cujo título é exemplar do nosso imbróglio: O mundo inteiro como lugar estranho (Edusp, 2016).
Em dado momento, em que escreve sobre o gênero ensaio como talvez mais apto para captar a confusão ultramoderna por ser mais sinuoso (lembremo-nos de Adorno etc.) que o discurso científico, diz o seguinte:
“(…) Por mais que a hiperprogramação tenda a dar a sensação de que pode reduzir a incerteza, nesta sociedade de organização flexível, trabalhos por projetos e competições que impulsionam a sobressair inovando incessantemente, os modelos de determinismo causal não captam a abertura do previsível ao acaso, as negociações e alianças dos intercâmbios que são reinventados. Reconhecer a incerteza não é abrir a porta traseira para a irracionalidade. O conhecimento do sentido narrativo, dramático e poético — criador das atuações sociais — habilita outro modo de saber racional: aquele que permite ter acesso a estruturas descontínuas, não articuladas pela causalidade (…)”.
Nosso pitaco vai por aí. Talvez o que esteja faltando para nós, editores — e para quem, acima de nós, muitas vezes sequer sabe o que vai escrito nos livros que vendem —, é saltar da frenética localização da tendência mais nova possível para o trabalho efetivo: que, no caso dos livros, é ir ao encontro das boas histórias e na aposta do seu poder transformador. Único jeito de conversar, de verdade, com a pessoa que está do outro lado. Isso, é claro, ao lado da construção de uma agenda séria que coloque a leitura do mundo e no mundo como algo essencial e não supérfluo. Deslocar o livro do lugar passivo, do lugar do produto que segue tendências para um lugar especial, que aceite o cenário de incertezas, proponha debates e aposte no livro como um espaço de invenção.
Essa, ironicamente, é a lição dos pensadores das grandes escolas de negócios do mundo. É o que dizem professores de gestão na Harvard e na London Business School, em Stanford, no MIT: nossa única saída é abraçar a incerteza e, para isso, precisamos cada vez mais preparar as pessoas para tomar decisões embasadas. É o que diz o professor da London Business School Julian Birkinshaw, que esteve em São Paulo no dia 17 de maio falando para executivos: “no mundo atual, a quantidade de informações excede qualquer capacidade de processá-la. Quanto mais dados temos, mais fácil fica para qualquer um provar o que quiser. A única forma de lidar com isso é aumentar nossa capacidade analítica”. Para isso, reforçamos nossa crença de que as editoras precisam deixar de tentar “adivinhar” o leitor para retomar seu papel ativo, de fomentadoras de debates que contribuam para a invenção de outros futuros melhores e mais imaginativos.
Sabemos o que o século 20 nos legou em termos literários, ou, de modo mais abrangente, em termos letrados. Acabamos de nos despedir de um desses agentes-testemunhas, o professor Antonio Candido de Mello e Souza. Por enquanto, sabemos que o século 21 traz apenas um pouco mais que páginas para colorir e cenas pseudopicantes. Precisamos querer mais. E querer mais, com mais profundidade, envolve algum risco. Aceitar alguma dose de incerteza em prol de boas narrativas pode ser o remédio para nossa vertigem. E garantir que mais gente tenha acesso a elas vai determinar nosso futuro.

* Angela Mendes, Daniela Padilha, Lizandra Magon de Almeida e Paulo Verano são Editores interessados em Livros. Procurando novos caminhos com suas editoras Barbatana, Jujuba e Pólen, publicarão juntos em coedição em 2017. Nesse mesmo espaço, publicaram um artigo em dezembro de 2016.
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