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E aí, já leu ‘Memorial de Aires’?

15 de fevereiro de 2018
3 min de leitura
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Em sua coluna de estreia, Marcio Coelho conta como conheceu Pedro Paulo de Sena Madureira

Alto, branco como cera, bochechas rosadas, terno de veludo verde, bengala e gravata borboleta. Ele entrou na sala da revisão com uma prova na mão e perguntou quem havia revisado A festa do bode, um puta livro do Mario Vargas Llosa. Sem levantar da cadeira, o revisor, recém-saído da graduação e se achando bom, levantou a mão. Ele entrou, ligou para o Vargas Llosa, disse a ele em que pé estava o livro, desligou e se virou para o revisor, este que você lê agora.

– É o primeiro livro que você revisa? – perguntou Pedro Paulo

– Sim, é – respondi meio sem jeito.

– Certo. Diga-me, que curso você fez na graduação?

– Letras – eu já com medo da próxima pergunta.

– Você já leu Memorial de Aires? – grande obra do Machado de Assis.

– Não, ainda não li – na época não tinha lido, que pena.

– Então, leia. Quando você terminar de ler, vai jogar seu diploma no lixo. Venha comigo, quero conversar sobre sua revisão.

Esse foi meu primeiro diálogo com Pedro Paulo de Sena Madureira, lá pelos anos 2000. O grande editor Pedro Paulo. O PP, como era chamado na antiga editora Siciliano. Já falei aqui sobre essa editora, uma escola que colocou muita gente boa no mercado. Rola um sentimento nostálgico quando vejo tanta gente que se autointitula editor(a). Não. Editor(a) constrói, não simplesmente reproduz. Saiba.

Sentei com o PP na mesa da sala de reuniões da Siciliano, e ele começou, página por página, a me mostrar o que eu tinha feito de certo e de errado. Mostrou o que não fazer, me elogiou nos pontos certos, mas principalmente ajudou a iniciar a carreira que já vai pra 18 anos. O editor que sou hoje deve muito ao PP. Ainda bem. Segui por pouco tempo na Siciliano, que estava passando por um momento de transição muito grande, e a vida continuou.

Certa noite, muitos anos depois, quando eu ainda morava em São Paulo, fui assistir a uma aula sobre o mercado editorial ministrada pelo Pedro Paulo num desses lugares com nomes arrogantes da cidade. Sempre elegante – nos hábitos e nas roupas – perfumado, altivo e cativante, PP nunca precisou de esforço para ser ouvido. A sala estava cheia. Depois de ouvirmos histórias e ensinamentos de um editor que conviveu com Clarice Lispector, pra citar apenas um nome, a aula terminou com muitas palmas e envios de currículo.

Lendo um perfil sobre o editor no Estadão, ficou óbvio, para mim, que um profissional como ele não cabe mais no nosso mercado. Menos pela capacidade, mais pela extravagância, totalmente justificada na época dele. Agora no ostracismo, ele vende objetos pessoais para sobreviver. Triste isso, mas mesmo fora do mercado há algum tempo, Pedro Paulo de Sena Madureira é um dos maiores editores que o Brasil tem. Sim, é, porque um(a) editor(a) nunca está editor(a), é editor(a).

O ofício de editor não se aprende em bancos escolares. Hoje eu sei disso, PP. Li Memorial de Aires, não joguei meu diploma fora, mas entendi seu recado. Obrigado por isso, obrigado por me ensinar tanto no início da minha carreira e por permitir que ainda o leiamos com tanta sinceridade. E você, editor(a) – ou que se diz editor(a) – já leu Memorial de Aires

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Marcio Coelho
Marcio Coelho

Marcio Coelho começou sua carreira como revisor na antiga editora Siciliano, passou por muitas editoras como Saraiva, Nova Fronteira e Ediouro. Trabalhou na TAG – Experiências Lite...

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