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Carapaças

25 de fevereiro de 2019
1 min de leitura
© Thomás Camargo Coutinho
© Thomás Camargo Coutinho

Em sua crônica mensal, Luciana Pinsky conta a história de uma mulher que perdeu tudo, menos a fome

Perdi o sono, a hora, o juízo e a fantasia. Só não perdi a fome, pois essa não me deixa.

Perdi meu papel, meu gorro, minha noite. Até meu sagrado livre-arbítrio me abandona.

Perdi vontade, força, controle. Me perdi, nos perdemos, tudo de uma tacada só. Perdi a chance de ser eu, mas quem sou eu senão o conjunto de causas que desconheço e contra as quais nada posso, como personagem que quer arrancar-se das páginas de livro, mesmo sabendo-se personagem de tal livro. Como escapar?

Estou em um canto, lagosta procurando toca para não ser notada pelos predadores. Que predador, porém, pode ser mais terrível do que eu mesma? A fome que não passa devora-me, na boca a secura do deserto. Bebo. Desconheço-me, camuflo-me: maquiagem também na alma. Consigo, enfim, fugir de mim. Alimento-me da antiga carapaça.

Agora nada resta. Eu e minhas novas cores já sumimos na toca infinita que eu nem sabia existir. Reinvento-me com a nova carapaça. Quanto tempo ela me conterá?

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Luciana Pinsky
Luciana Pinsky

Luciana Pinsky é editora da Contexto, escritora e jornalista. Publicou o romance Sujeito oculto e demais graças do amor (Record) e mantém seu blog de crônicas. Há dois anos publica...

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