Carapaças
Em sua crônica mensal, Luciana Pinsky conta a história de uma mulher que perdeu tudo, menos a fome
Perdi o sono, a hora, o juízo e a fantasia. Só não perdi a fome, pois essa não me deixa.
Perdi meu papel, meu gorro, minha noite. Até meu sagrado livre-arbítrio me abandona.
Perdi vontade, força, controle. Me perdi, nos perdemos, tudo de uma tacada só. Perdi a chance de ser eu, mas quem sou eu senão o conjunto de causas que desconheço e contra as quais nada posso, como personagem que quer arrancar-se das páginas de livro, mesmo sabendo-se personagem de tal livro. Como escapar?
Estou em um canto, lagosta procurando toca para não ser notada pelos predadores. Que predador, porém, pode ser mais terrível do que eu mesma? A fome que não passa devora-me, na boca a secura do deserto. Bebo. Desconheço-me, camuflo-me: maquiagem também na alma. Consigo, enfim, fugir de mim. Alimento-me da antiga carapaça.
Agora nada resta. Eu e minhas novas cores já sumimos na toca infinita que eu nem sabia existir. Reinvento-me com a nova carapaça. Quanto tempo ela me conterá?
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