Dissimuladamente vivos
Em seu último artigo de 2022, Paulo Tedesco fala sobre o que esperar para o próximo ano
Há alguma segurança no horizonte, não é difícil acreditar. Há indicativos de que gente séria e consequente ainda prefere a democracia, ainda prefere o rito legal do que o caos golpista, é algo que pode ser visto, sim, nas manifestações que nos chegam. Talvez, diferentemente, de outros momentos em que a sombra do golpe de estado rondou o país, desta vez, ao que parece, há certa confiança na estabilidade político-democrática. Enfim, ainda acreditamos que, no próximo 1º de janeiro, o presidente eleito tomará posse e sem qualquer soluço golpista.
Porém, a se ver o espaço que a gritaria de meia-dúzia teve por eco, como no caso dos acampamentos diante de quartéis, e seus inesperados apoiadores, feito algumas polícias e até um sindicato de engenheiros do RS, fica patente que a vontade e esculhambar o jogo democrático e fazer o país retroceder ainda mais é grande, muito grande. E pelo visto permanecerá latente por anos.
Se o governo que assume governará e trará o crescimento e o combate à fome para o centro do jogo, todos acreditamos que sim, afinal, perto do governo Bolsonaro, qualquer ação já significa um expressivo movimento. E cá entre nós, se houve um governo inepto e caótico, foi esse que sai. Nem os mais apagados do período da república café-com-leite foram tão ruins e inertes. E olha que não está a se falar em corrupção, como dos governos movidos a voto de cabresto, típicos da era do café, mas é de bagunça mesmo, abandono e destruição da máquina pública.
Gosto de me perguntar sobre quais escritores e historiadores estão já a escrever sobre o que foi esse horror vivido desde a posse de Bolsonaro, ou antes, quando Dilma foi deposta de maneira vergonhosa e irregular. Excelentes biografias e relatos sobre a ditadura saem com frequência, ainda melhores são aqueles que analisam os períodos de Vargas e até muito antes, quando do Brasil Império e início da República. São momentos marcantes da nossa história, momentos de virada e de novos rumos. É divertido pensar no que virá como análise.
Ouvi que com Bolsonaro morria o período da Nova República, instaurada com a entrada de Sarney na presidência, e ratificada pela constituição de 1988. E aqui começa também minha curiosidade, como chamaremos esse novo período que surge? Será, de fato um novo período? É verdade que os atores mudaram, não muito, é verdade, igualmente, que a história mundial não é mais a mesma. Em outras palavras, tudo mudo, ainda que algo disfarçado.
O mundo da bipolaridade nuclear cedeu ao unipolar, nos 1990, e por sua vez, este cede, agora, ao multipolar. Também é inequívoca a decadência norte-americana, país de presença constante nas políticas sul-americanas. A inflação estaduninense, associada aos seus desequilíbrios financeiros, avisam uma repetição do que foi o desmantelamento da antiga URSS. É assustador, reconheço, mas há quem aposte nisso para não muito tarde.
E retorno aos horizontes, porque muitos devem pensar: qual história do Brasil recente? Ou se a vaga golpista se reanimar, resistiremos à censura direta e objetiva de algum insano que resolva chegar à força no poder? Honestamente, creio que o país seguirá adiante, democrático, mas aos solavancos, aos protestos, arrastadamente para um futuro melhor, bem melhor, até porque, melhorar o país do buraco da pandemia e logo após, não me parece ser muito difícil.
Quem viver verá.
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