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Uma cartografia do Brasil profundo

17 de janeiro de 2024
3 min de leitura
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Otto Leopoldo Winck nos conta a saga de uma família de polacos residente no mundo rural paranaense com muita habilidade nas descrições da natureza

A força do romance regionalista, como o premiadíssimo Torto arado, de Itamar Vieira Junior, pode ser constatada também em Forte como a morte (Aboio), de Otto Leopoldo Winck. Este, aliás, é um tema complexo, já que os regionalismos, no atual quadro da literatura brasileira, são ampliados e complicados por questões mais universais, sofrendo hibridismos interessantes. Winck nos conta a saga de uma família de polacos residente no mundo rural paranaense com muita habilidade nas descrições da natureza, dos hábitos e da fala das personagens, abordando um tema que é usual no cristianismo – a questão dos estigmas, ou seja, do que popularmente ficou conhecido como “chagas de Cristo”, que seriam privilégios concedidos a criaturas muito puras e especiais, santos ou quase. Uma jovem, Rosália, torna-se portadora desses sinais, que só podem ser considerados privilegiados por quem é complacente com o sadismo das duvidosas dádivas ao ser humano impetradas pelas divindades. Naturalmente, atrairá devotos, os habituais e vorazes populares ingênuos à espera de milagres e providências especiais de um Deus que sempre foi tido por insondável e ainda assim é considerado, de maneira paradoxal, providente, refletindo nada mais que projeções e desejos humanos. A narrativa segue um ritmo linear de saga de família, com desdobramentos de gerações, e vai nos levar desse catolicismo ingênuo e submisso do mundo rural à atitude mais politizada, ainda no mundo rural, dos acampamentos de Sem-Terra. Ela é interrompida constantemente por fluxos de narração introspectiva de um padre em crise de fé e por apartes que abordam aspectos teológicos sofisticadíssimos como o de um eventual “apagamento” de Deus. Por todos os poros, a narrativa nos mostra o que há de doloroso e humano nessa questão e não espanta que as chagas de Cristo tenham uma destinação insólita no final. O mundo rural popular e a erudição extrema (com citações de Wittengenstein e Kierkegaard) convivem nesse romance incomum, comprovando o talento (de resto já comprovado por Que fim levaram todas as flores) do prosador e poeta Otto Leopoldo Winck.

*Chico Lopes é poeta, tradutor, romancista e contista, ganhador em 2012 do Prêmio Jabuti de melhor romance com a novela O estranho no corredor, lançada pela Editora 34.

Forte como a morte

Autor: Otto Leopoldo Winck

Editora: Aboio

Páginas: 256

Preço: 64,90

Onde comprar: https://bit.ly/ForteComoAMorte

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