A leiloeira
Com 30 mil leilões realizados, Vera Nunes é referendada por colecionadores e concorrentes como a mais importante negociante de livros raros em atividade no Brasil
No horário marcado, eu estava na avenida Brigadeiro Luís Antônio, número 1827. Contudo, não conseguia encontrar a entrada do prédio comercial onde me aguardava Vera Nunes, proprietária da mais importante casa de livros e documentos raros do Brasil. Caminhei para cima e para baixo pela calçada, checando os números, que saltavam do 1851 para o 1903. Era o lado certo da avenida? Era. Mas onde estava o endereço? No edifício que deveria ser o correto, sequer havia uma portaria. Bati palmas, como se chegasse na casa de um parente no interior. Havia um grupo de trabalhadores da construção civil. Impaciente por ter sido interrompido, o mestre de obras veio até mim, de cara amarrada enquanto me ouvia perguntar sobre uma livraria na sala comercial número 28. “Tá fechado, amigo”. Telefonei então para a Vera, para perguntar onde ela estava escondida. Ela riu. A loja fica na avenida Brigadeiro Faria Lima, não na Luis Antonio. Errei de Brigadeiro! Seis quilômetros e 30 minutos depois, enfim entrei no prédio correto.
Da escada rolante, avistei a placa “Vera Nunes Leilões” sobre a entrada envidraçada. Encontrei a sorridente proprietária, de pé diante de uma cômoda de trabalho. Após as gentilezas iniciais, de pronto ela passou a exibir alguns dos tesouros ali guardados: um exemplar de 1865 de Jovina, autobiografia da mulher que lutou na Guerra do Paraguai, disfarçada de soldado. A primeira edição de Poemas, de Jorge de Lima. Uma carta assinada por Santos Dumont. Uma Bíblia do século XVI. Um dos mais antigos mapas da capitania de São Vicente, o mar com desenhos de monstros marinhos a devorar as caravelas.
Eu não queria perguntar o preço dos exemplares, porém, não resisti. As primeiras edições de Machado de Assis, em bom estado e sem autógrafos, são comercializadas por R$ 8 mil. As primeiras edições de livros do século XX, como Os Sertões, de Euclides da Cunha, e Alguma Poesia, de Carlos Drummond de Andrade, custam o dobro. Como a qualidade do papel da primeira metade do século XX no Brasil era ruim, os exemplares em bom estado são mais difíceis de encontrar. E há os livros extremamente raros, cujo preço dispara: Espectros, de Clarisse Lispector, do qual só há notícias de duas cópias; Estrela da manhã, de Manuel Bandeira; O Guarani, de José de Alencar; Mensagem, de Fernando Pessoa. Estes exemplares podem ser negociados por até três dígitos, ou quanto o vendedor decidir cobrar.
A história de Vera Nunes com os livros raros começou nos anos 1990, quando proprietária de uma lanchonete na rua Augusta. Na época, uma amiga trabalhava na livraria de Pedro Corrêa do Lago, localizada nos Jardins. Observando os leilões, ela fez uma proposta à Vera, sugerindo que localizasse algumas gravuras antigas para que vendessem. Vera garimpou o bairro, conversou com os antigos comerciantes e moradores, e conseguiu comprar três peças. Leiloadas, as ilustrações renderam o triplo do valor. Gostou do negócio.
Dois anos depois, surgiu a oportunidade para trabalhar na área. Vera vendeu a lanchonete e mergulhou no mundo dos livros e documentos raros. “Comecei na Ilustrata Gravuras Antigas, na Rua Joaquim Eugênio de Lima. Aprendi primeiro a trabalhar com documentos, depois passei para as primeiras edições. Foi uma escola.” Desta época, Vera conheceu importantes colecionadores, como o bibliófilo e membro da Academia Brasileira de Letras, Antonio Carlos Secchin, o escritor Ésio Macedo Ribeiro e o próprio Pedro Corrêa do Lago. Os recém-chegados ao grupo de maiores colecionadores brasileiros são Rômulo Pinheiro e Patrícia Peck, que iniciaram sua coleção oficialmente em 2014 e já reuniram 20 mil livros, sendo 2 mil raros. Também são clientes de Vera.
Após dez anos, Vera montou a própria loja. Desde então, já negociou mais de 30 mil lotes. Seus catálogos, uma vez publicados, são vasculhados por centenas de colecionadores, no Brasil e no mundo. Também recebe em consignação peças de sebos dedicados a livros comuns que por acaso tropeçam em um exemplar raro. É o caso de André Gambarra, dono da Avenida Livros, em Porto Alegre. Em uma sexta-feira de Carnaval, viu entrar em sua loja um morador de rua, carregando um saco de lixo preto com livros que havia recolhido. Procurava quem pagasse qualquer coisa pelo conjunto, da mesma forma que fazia com latinhas de alumínio ou caixas de papelão. Analisando superficialmente o conteúdo, o livreiro percebeu que eram antigos, e de literatura portuguesa. Poderiam valer alguma coisa. Fechou negócio por R$ 40, imaginando vender cada um dos exemplares por este valor. Dias depois, enquanto limpava e catalogava os exemplares, descobriu um tesouro: lá havia um exemplar de Mensagem, de Fernando Pessoa, autografado. Além de ser o único livro publicado em vida pelo poeta português, seus autógrafos são raríssimos. Em leilão, o livro atingiu 20 mil dólares.
Os leilões de livros são uma grande oportunidade para os livreiros. Caso um livro entre em disputa, o preço pode escalonar. Um caso famoso entre os bibliófilos envolveu um exemplar da primeira edição de Os Sertões, de Euclides da Cunha. Em um leilão presencial, o livro foi disputado lance a lance até ser arrematado por R$ 140 mil. Hoje, a primeira edição pode ser comprada por R$ 15 mil. No último leilão que Vera organizou, Há uma gota de sangue em cada poema, de Mário de Andrade, sob o pseudônimo de Mário Sobral, teve 11 lances e foi arrematado por R$ 5 mil.
Após uma hora de conversa e diversos exemplares analisados, Vera se sente confiante para me mostrar um tesouro. De uma gaveta, ela retira o Istoria delle guerre del regno del brasile, accadute tra la corona di Portogallo e la republica di Olanda, exemplar editado em Roma em 1698. Escrito pelo frei carmelita João José de Santa Teresa, o livro é raríssimo. Só tive notícias de um outro exemplar, localizado na Biblioteca Brasiliana Guida e José Mindlin. Há seis anos, Vera localizou o livro, porém era necessário uma recuperação cuidadosa. Agora, o exemplar está quase pronto, em qualidade impressionante, da forma como foi impresso, em papel artesanal, há quase 350 anos. No mercado internacional, o valor estimado do exemplar é de 47 mil dólares. Pergunto a Vera se ela não tem receio de roubos. Na minha cabeça, o livro deveria estar guardado em um cofre forte, com aqueles lasers de detecção de movimento, senha por voz e leitura da íris. Como nos filmes. Vera me olha curiosa ante a observação. Então, explica, sorrindo: “Eu não me preocupo. No Brasil, ninguém dá valor aos livros”.





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