Três Perguntas do PN para Ana Lima Cecilio
Editora e curadora comenta o sucesso de sua newsletter com dicas de leitura e fala sobre seu primeiro ano no Grupo Editorial Record
Às vésperas de completar um ano como editora-executiva da Ficção Nacional no carioca Grupo Editorial Record, a paulistana Ana Lima Cecilio possui uma característica que em muito enriquece o seu trabalho: passou por praticamente todos os elos da cadeia do livro sem perder o ponto de vista da leitora. Foi livreira, editora, curadora, mediadora de leitura e divulgadora literária.
Nessa breve entrevista ao PublishNews, agradece pelos anos em que assinou a curadoria da sempre badalada Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2022 e 2023, e comenta sobre o sucesso diário que a sua newsletter independente, A Lábia, vem fazendo: “Há um espaço nos meios que falam de livros que não é nem o da crítica, nem o do jornalismo cultural, nem o do influencer, do booktuber: é o da dica”.
Formada em Letras pela Universidade São Paulo (USP), Ana confessa que o tempo é recurso escasso e sabe o valor da sua experiência no mercado editorial. “Acho que fui uma boa curadora porque fui uma boa livreira, e acho que hoje sou uma boa editora porque fui uma boa curadora. Eu gosto de tudo, mas só queria ter mais tempo pra ler”. Leia a prosa completa:
PUBLISHNEWS — Você se aproxima do primeiro ano à frente da Ficção Nacional da Record. Que balanço faz desse período? O que conseguiu colocar de pé até aqui e o que ainda está ajustando?
ANA LIMA CECILIO — A Record é uma editora continental, com uma história linda de mais de 80 anos. Passei esses meses com um olho nesse passado, pensando nesse legado que é um privilégio editar, como o Drummond e a Adélia Prado, por exemplo, e com outro olho no futuro, planejando trazer para a editora uma literatura contemporânea que seja viva, relevante, inovadora, e também em sintonia com as tendências do que os leitores querem ler. Eu sei, soa como uma missão impossível. Mas meu trabalho é fazer essa ambição louca fazer sentido.
PN — A newsletter A Lábia vem conquistando leitores e profissionais do livro. O que esse contato mais direto e frequente com o público tem te mostrado? Essa escuta toca, de alguma forma, o seu trabalho como editora?
ANA — A Lábia surgiu como uma brincadeira, ou talvez como um instrumento muito descompromissado de organizar minhas leituras, que são, desde sempre, festivas e caóticas. Mas ela tem me mostrado que há um espaço nos meios que falam de livros que não é nem o da crítica, nem o do jornalismo cultural, nem o do influencer, do booktuber: é o da dica, de alguém que leu muito e que, modéstia às favas, entende o que é um livro que é para poucos leitores e o que é um livro que agrada a muita gente.
Somo a isso o fato de que quem trabalha com livros no Brasil tem o dever de dar o seu sangue para fazer as pessoas se aproximarem da leitura, terem curiosidade, entenderem que os livros são maravilhosos, que organizam a vida, que ajudam a entender o mundo etc. Eu acho que, n’A Lábia, escrevo com essa empolgação.
E aí, claro, é uma delícia ter resposta dos leitores que não conheço, que se aproximam com muito carinho porque me dizem que começaram a ler mais, a comprar mais livros, a frequentar livrarias etc. A Lábia só me dá trabalho, mas me dá muita alegria também.
PN — Sua trajetória combina edição, curadoria (como na Flip, super elogiada) e projetos de mediação de leitura. Como essas frentes se alimentam hoje? E o que muda quando a lógica de um evento, mais imediata, encontra o tempo longo e as exigências de catálogo de uma grande editora?
ANA — Gosto de dizer que eu trabalhei em todos os elos da cadeia do livro: já fui livreira, curadora, agora voltei a ser editora, inventei de ser divulgadora, já trabalhei em editoras minúsculas e hoje estou na Record, a maior do Brasil.
É engraçado porque cada um dos trabalhos é diferente, claro, mas é sempre muito imerso na lógica do mundo editorial, que é uma lógica particular, em que as coisas funcionam meio como um comércio, mas meio com uma espécie de devoção, porque envolvem uma paixão meio maluca pela literatura.
A Flip me deu dois anos maravilhosos, muito ricos em experiências que nunca tive, em contato com todo o mercado editorial. A Record me dá um mergulho preciso nos textos dos meus autores, no trabalho cotidiano que é ler e escrever, e ouvir e entender o que é o melhor que a gente pode tirar de um livro.
Sinceramente gosto de todos os lados, e acho, sim, que um alimenta o outro. Acho que fui uma boa curadora porque fui uma boa livreira, e acho que hoje sou uma boa editora porque fui uma boa curadora. Eu gosto de tudo, mas só queria ter mais tempo pra ler.
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