Três perguntas do PN para Godofredo de Oliveira Neto
'O bruxo do Contestado', romance que o projetou ao revisitar um dos conflitos mais sangrentos da história do país, completa 30 anos e o PN conversa com o imortal da ABL
Três décadas depois de publicar O bruxo do Contestado, pela Nova Fronteira (agora no catálogo da Editora Record), o romance que o projetou nacionalmente ao revisitar um dos conflitos mais sangrentos da história brasileira, o escritor e acadêmico Godofredo de Oliveira Neto olha para o país sem muito otimismo. Para ele, questões como a concentração fundiária, o autoritarismo, o racismo, a misoginia e os preconceitos de classe, religião e gênero continuam estruturando a sociedade brasileira. “A literatura chega onde a História às vezes não chega”, afirma.
Membro da Academia Brasileira de Letras desde 2022 e autor de romances como Ana e a margem do rio (Record, 2002), Amores exilados (Record, 2011) e O desenho extraviado de Hieronymus Bosch (Minoutauro, 2023), Godofredo vê a escrita como uma forma de resistência e reordenação do mundo. Nesta entrevista ao PublishNews, o imortal fala sobre a permanência dos temas reincidentes e a importância de personagens negros, indígenas e femininas em seus livros e adianta que trabalha em um novo romance, inspirado na convicção de que “a literatura é a consciência da sociedade”. Leia a conversa:
PUBLISHNEWS — Neste ano, O bruxo do Contestado completa 30 anos de publicação. Ao olhar para o romance hoje, o senhor pensa mais nas mudanças que o Brasil viveu nesse período ou nas questões que insistem em permanecer as mesmas?
GODOFREDO DE OLIVEIRA NETO — O livro aborda três momentos da nossa História: a Guerra do Contestado, a vida cotidiana do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial e os anos sombrios da ditadura brasileira. Ainda perduram a questão fundiária no Brasil, a ascensão de ideias nazifascistas, o autoritarismo, a misoginia, o preconceito religioso e de gênero, o preconceito de classe e o racismo. Tudo isso mostra que a estrutura fundante do país mudou pouco em 30 anos. Vejo isso com muita tristeza, mas continuo na resistência. A literatura chega onde a História às vezes não chega. A personagem mais importante para mim no livro é Antônia Casamança, que aparece no final e desenlaça o livro. Trabalhadora doméstica numa rica casa de comerciantes, negra, ela consegue se comunicar com a Rosa, filha muda, por trauma do nazista Gerd. Aliás, sempre estruturo os meus romances com personagens negros. Como não ocupo esse lugar de fala, cuido para que estejam representados com força e determinação no enredo. Foi assim com o Lázaro, no Amores exilados, o Marcelino, no romance com o mesmo nome, o Fausto, no romance Grito, o Luigi, no livro O desenho extraviado de Hieronymus Bosch, e Baltazar, no romance Menino oculto. Em relação aos indígenas, a personagem Ana, do romance Ana e a margem do rio, cuidei para que houvesse um choque entre a sua cultura ocidental aprendida em Colégio de freiras e o desejo posto em prática de narrar para a língua portuguesa os mitos de sua tribo, ouvidos na infância em uma língua, claro, ágrafa. A impossibilidade dessa tradução a ameaça. É a minha defesa dos povos originários através da literatura. E quanto às mulheres, o protagonismo e coragem delas estão presentes em todos os meus livros. A literatura conserta o defeito de fabricação da condição humana. Essa é a minha militância literária.
PN — Ao longo da carreira, o senhor viveu em diferentes países, lecionou literatura, publicou romances, contos e ensaios e assumiu uma cadeira na ABL. O que ainda alimenta a sua vontade de escrever?
GODOFREDO — A pulsão para a arte está em todo mundo e em todos os momentos, do enfeite do bolo de aniversário ao Abaporu, da Tarsila do Amaral. O foco e a paciência é que fazem o artista. O desejo de uma reordenação do mundo também. Está na atividade lúdica da criança expressa na literatura infantil e juvenil. E também nos romances e poemas da literatura dita adulta. No meio aparecem os leitores e as leitoras, que não vão decifrar o texto. Mais que isso, vão recriá-los.
PN — Tem alguma boa notícia para os seus leitores? Há algum livro ou projeto literário em construção?
GODOFREDO — Estou escrevendo um novo romance ao estilo de O desenho extraviado de Hieronymus Bosch, partindo da filosofia que a literatura é a consciência da sociedade. Escrevo este novo livro ouvindo as palavras da Helô Teixeira, num vídeo saboroso e emocionante, em que ela situa a obra como a abertura de uma nova escritura e uma nova linha narrativa na literatura brasileira do século XXI, uma novíssima janela na tela do computador da literatura contemporânea. Palavras dela.
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