Ler o Som estreia com Cristina Fibe em papo sobre audiossérie premiada
Cabine Estúdio está com agenda a pleno vapor, Ação Editora se prepara para levar os seus livros ao formato de audio e a união sonora de Patti Smith e Zélia Duncan
Será que uma cena muda muito quando sai do papel e ganha voz? O que acontece com as palavras quando dançam na boca e são traduzidas em ritmo, respiração, pausa, intenção? Foi da vontade de desvendar essas transformações, e também de noticiar o que agita os bastidores dos audiolivros, podcasts e audiosséries do país, que desenhei a Ler o Som, nova coluna semanal do PublishNews dedicada às narrativas em áudio.
Há muitos ouvidos abertos por aí, e outros tantos a conquistar. Uma pesquisa inédita da Nielsen BookData mostrou que 25% dos brasileiros com mais de 10 anos consumiram e-books ou audiolivros nos últimos 12 meses, um universo de cerca de 47 milhões de pessoas. No caso dos audiolivros, um dos atrativos é justamente a possibilidade de fazer a leitura caber em uma caminhada, enquanto se vai para o trabalho, nas tarefas domésticas e em outros minutos do cotidiano.
Bato na porta e peço licença para entrar em estúdios, conversar com narradores, diretores e técnicos, descobrir em quais literaturas as editoras estão apostando as fichas sonoras, acompanhar os movimentos desse mercado em expansão para além dos números e, sobretudo, entender o caminho das palavras entre as páginas e os ouvidos.
Toda semana, a Ler o Som vai chegar com três editorias: VIVA-VOZ, trazendo pequenas entrevistas com quem dá vida a esse universo; GRAÚDAS, com notícias do segmento que merecem circular mais; e ESCUTA ESSA, reunindo dicas de leitura desta colunista estreante. Ouvir também é uma forma de ler. As narrativas em áudio estão sendo produzidas aos borbotões e já passou da hora de ganharem um espaço para chamar de seu na imprensa.
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VIVA-VOZ
Em 2018, quando começou a investigar as denúncias de abuso sexual contra João Teixeira de Faria, o João de Deus, Cristina Fibe já tinha quase 15 anos de jornalismo. Ao levar à redação de O Globo os depoimentos de seis mulheres, porém, ouviu de seus editores perguntas que mudariam o seu jeito de cobrir crimes sexuais: “Por que elas não falaram não, não saíram correndo ou não fizeram boletim de ocorrência?”. A experiência levou a jornalista a estudar a cobertura de gênero e perceber que o problema não se restringia àquele caso. “Foi ali que entendi que não era sobre jornalismo. Era sobre poder”, diz.
Essa experiência está na origem de Silenciadas: os bastidores de reportagens sobre crimes sexuais, audiossérie criada por Cristina e Mari Faria e lançada em 2025 numa parceria entre a revista Piauí e a Audible. Há poucos dias, a produção venceu o Prêmio de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) na categoria Jornalismo com Perspectiva de Igualdade. O júri destacou a qualidade dos roteiros, da narração, da edição e do design sonoro.
Na estreia da coluna Ler o Som, nova coluna semanal do PublishNews dedicada às narrativas em áudio, a jornalista conta por que escolheu justamente o áudio para narrar histórias que tantas vezes tiveram dificuldade para ser ouvidas, fala sobre as mudanças no seu jornalismo desde aquela investigação e adianta os seus próximos projetos, entre eles um livro pela Bazar do Tempo, previsto para chegar às livrarias ainda em 2026. Leia a conversa no VIVA-VOZ:
1. A audiossérie Silenciadas transforma em narrativa os bastidores de investigações sobre crimes sexuais. Por que você e Mari Faria escolheram o formato em áudio para contar os bastidores dessas reportagens?
CRISTINA FIBE — Você usou o verbo que quisemos aplicar: contar. O objetivo era criar a proximidade com o/a ouvinte que o áudio proporciona. Chamar pra perto, pra contar o que ninguém tinha contado ainda. A audiossérie nasce a partir do meu livro sobre o caso do ex-líder espiritual de Abadiânia: João de Deus: o abuso da fé (Globo Livros, 2021). Àquela altura, muito já tinha sido dito sobre as denúncias, inclusive em séries documentais e de ficção. Mas havia um ângulo que só eu poderia explorar: o da jornalista que não pôde publicar o furo. A opção pelo áudio fez todo o sentido: ele traz pra perto, cria uma cumplicidade. É como chamar a amiga pra contar um segredo.
2. A Sociedade Interamericana de Imprensa destacou os roteiros, a narração, a edição e o design sonoro de Silenciadas. Como vocês pensaram essa construção narrativa?
CRISTINA — Os roteiros e a narração são meus, construídos sempre em parceria com a Mari Faria e a Trovão Mídia, e foram pensados para abrir o leque, sair do meu caso individual e mostrar o que tinha de estrutural no que eu, como jornalista, tinha vivido. Por isso a opção de incluir outros casos, de Roger Abdelmassih à família Klein, e mostrar o tamanho do desafio que temos ao cobrir casos de crimes sexuais. A edição e o design sonoro, obras de Pedro Vituri — autor também da trilha (brilhante) —, são o toque mágico que a direção da Mari Faria traz: elegantes, capturam e mantêm a atenção, sem sensacionalismo.
3. O que mudou na sua maneira de cobrir crimes sexuais desde a investigação sobre João de Deus, que foi um marco na sua carreira? Já são quantos anos de jornalismo?
CRISTINA — Esse caso mudou tudo na minha carreira, que começou na Folha de S.Paulo, em 2004. Em 2018, quando dei início à apuração sobre os estupros cometidos por João Teixeira de Faria, eu já contava sete anos no jornal O Globo, quase quinze anos como jornalista, mas não tinha essa especialização, nem sequer um letramento em cobertura de gênero. Ter que responder às perguntas que a chefia me fazia, como ‘por que elas não falaram não, não saíram correndo ou não fizeram boletim de ocorrência?’, me fez estudar, buscar especialistas, e a cada dia que se passava aumentava a minha indignação. Como diz a jornalista Ivandra Previdi, que descobriu e tentou publicar o caso Roger Abdelmassih, uma década antes de eu passar por isso: foi ali que eu entendi que não era sobre jornalismo. Era sobre poder. Isso me fez não querer nunca mais deixar de cobrir esse assunto. São violações diárias de direitos humanos que estamos deixando passar. Pautas não faltam. Faltava quem suportasse brigar por elas todos os dias.
4. Há outro livro no seu horizonte? Silenciadas pode ganhar também uma versão impressa?
CRISTINA — Ainda neste ano, publico um novo livro pela Bazar do Tempo, reunindo as minhas colunas no UOL e no Amado Mundo, publicadas entre 2023 e 2026. Um livro pelo qual tenho muito carinho, porque consolida essa minha trajetória e deixa claro o quão estrutural é essa violência. Uma versão impressa de Silenciadas ainda não está no horizonte, mas quem sabe uma segunda temporada não nasce, se vocês insistirem muito?
5. O que ocupa a sua mesa de trabalho hoje e quais são os próximos projetos?
CRISTINA — Minha mesa de trabalho reflete o meu navegador, que por sua vez reflete meu cérebro: são inúmeras abas abertas, num fluxo ordenadamente caótico. Neste momento, enquanto fecho o livro da Bazar, invisto na consolidação da minha newsletter, na qual pretendo manter o meu fluxo semanal de colunas em texto, sigo investigando o caso das Meninas Cantoras de Petrópolis (que acusam o maestro Marco Aurélio Xavier de abusos durante quatro décadas, como publiquei na piauí) e construo projetos audiovisuais, uma linguagem que também me interessa, pensando sempre em amplificar essa mensagem.
GRAÚDAS
UMA CABINE NO COPAN | Desde o final de 2025, Mika Lins e Sergio Glasberg vêm dando forma ao Cabine Estúdio, um cantinho para lá de charmoso já devidamente encantado na sala do apê onde o casal mora, no Copan, em São Paulo. Muitos audiolivros têm saído do espaço diminuto, equipado com o que há de melhor no mercado. Mika revelou à Ler o Som que vai começar a fazer os regraves do clássico Viva o povo brasileiro, narrado pelo ator Beto Mettig, baiano como o autor, o eterno João Ubaldo Ribeiro (1941-2014). Os horários do mini-estúdio estão badalados. Nesta semana, haverá mais sessões de leitura do clássico Sobre fotografia, de Susan Sontag (1933-2004), na voz da fotógrafa Juliana Monteiro, em sua primeira narração, e um novo livro chegou para ser transformado: o best-seller A mais recôndita memória dos homens (Fósforo, 2023), de Mohamed Mbougar Sarr, vencedor do Prêmio Goncourt e traduzido para mais de 30 idiomas.
VAMPIROS NO AR | Você já se perguntou o que sente quem narra audiolivros quando cria as vozes dos personagens? Pois Andressa Bodê se dedicou ao ofício para viver vampiros no audiolivro Devoção sangria (independente, 2025), escrito por S. M. Silveira e gravado no Home Studio, em São Paulo, sob a produção da Narratix. “Algumas cenas de tensão sexual entre o vampiro e a bruxa me deixavam tão sem graça que eu parava pra rir com a assistente da narração, a Cris”. Andressa conta que recebe um briefing com anotações das pronúncias de nomes, estilo de narração, que voz o cliente quer, além da sinopse da história, mas que prefere não saber de muitos detalhes. “Em livros eróticos, quanto mais eu souber antes, mais preparada estarei na hora da sessão”, revela. Andressa é cofundadora do Coletivo Brasileiro de Narradores de Audiolivro (CBNA) e é uma das entrevistadas da matéria Em alto e bom som: o ofício de narrar audiolivros, que a colunista escreveu à Revista PublishNews número 3, distribuída gratuitamente desde julho de 2026.
AUDIOLIVROS DA AÇÃO | Com pouco mais de um ano de existência, a Ação Editora, vinculada à ONG Ação da Cidadania, se prepara para entrar em estúdio e ver nascer os seus primeiros audiolivros. A jornalista Mariana Bastos, coordenadora de Marketing e Estratégia da Ação, vai puxar esse bonde sonoro na casa editorial, sob o comando de Pascoal Soto, com o livro recém-lançado Dengo e cheiro no cangote, da alagoana Vitória Rodrigues. A própria Vitória, que é atriz, cantora, compositora e poetisa, vai colocar a voz no seu audiolivro. As negociações já estão adiantadas, desse e de mais um título.
ESCUTA ESSA
PATTI E ZÉLIA JUNTINHAS | Presente de Antonio Hermida, responsável pelos produtos digitais da Companhia das Letras, o audiolivro Pão dos Anjos: A trajetória da minha vida, no ar desde junho de 2026, tem sido um maravilhamento nas caminhadas matinais da colunista. A infância pobre, contada em detalhes por uma Patti Smith superstar (mas que faz questão de não esquecer de onde veio), tem chegado macio na voz grave de Zélia Duncan, cantora, compositora e escritora brasileira que toca muito por aqui. Produzido e gravado no estúdio Trampolim, em São Paulo, ele dura 8h14, numa tradução cuidadosa de Camila von Holdefer. O audiolivro revela uma Zélia que parece ter encontrado rápido o seu jeito de dar vida às palavras de Patti. Ainda em escuta, com todas as chances de ganhar cinco estrelas.
FOTOGRAFEI VOCÊ | Que a psicanalista e escritora Vera Iaconelli encontrou um jeito muito divertido de saber mais a fundo sobre as personalidades, a gente já entendeu, mas que ela entrevistou um dos grandes fotógrafos do nosso tempo, Bob Wolfenson, só vai saber quem acompanha o seu podcast Isso não é uma sessão de análise, criado por ela e pela Trovão Mídia. É, no mínimo, inspirador ouvir Bob declarar que trabalhou anos sem sobressair na profissão, até se mudar para Nova York e ter a oportunidade de aprender com grandes nomes da arte de escrever com a luz. Depois de escutar o episódio, que tal folhear o novíssimo Sub/Emerso = Sub(E)merged (Senac São Paulo, 2026), feito com o que foi recuperado da sua produção fotográfica analógica entre 1970 e 2000, após a inundação do seu estúdio em São Paulo.
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