Três Perguntas do PN para Antonio Scurati
'A melhor época de nossas vidas' (Manjuba) chega ao Brasil pelo selo da editora Mundaréu com tradução de Federico Carotti, e levou os prêmios Viareggio-Rèpaci e Seleção Campiello em 2015
Antonio Scurati escreveu um livro poderoso no qual entrelaça a incrível história de Leoni Ginzburg (1909-1944), figura célebre no meio editorial italiano, fundador da editora Einaudi, intelectual e historiador, perseguido pelo regime fascista nos anos 1930 e 40 com fim trágico, com a trajetória de seus avós, que viveram mais ou menos na mesma época no conturbado cenário italiano. A melhor época de nossas vidas (Manjuba) chega ao Brasil pelo selo da editora Mundaréu com tradução de Federico Carotti, e levou os prêmios Viareggio-Rèpaci e Seleção Campiello em 2015.
Scurati (Nápoles, 1969) é professor na Universidade de Comunicação e Línguas (IULM) em Milão e colunista do jornal La Repubblica. Depois de alguns trabalhos publicados e reconhecidos na Europa, em 2018 ele iniciou uma trilogia sobre o fascismo e Benito Mussolini com M. O filho do século, laureado com o Prêmio Strega 2019, a principal premiação literária italiana, M. O homem da providência (2020) e M. Os últimos dias da Europa (2022), trilogia publicada no Brasil pela Intrínseca. Neste ano em que a Feira de Frankfurt homenageou a Itália, ele foi um dos principais convidados da delegação no evento – não sem um bom par de polêmicas. Ao PublishNews, Scurati respondeu três perguntas.
– O livro termina com uma reflexão muito interessante sobre a sua geração – você escreve que cresceu com o “futuro fácil e feliz” mencionado por Natalia Ginzburg em seus textos. No entanto, parece que estamos em um momento muito diferente no mundo atual, inclusive politicamente. Nesse mundo em que vivemos, qual é (ou poderia ser) o papel dos intelectuais, escritores e editores?
É verdade. Eu escrevi Il Tempo migliore della nostra vita há cerca de uma dúzia de anos. Naquele momento, diferente de agora, o retorno do fascismo parecia impossível, embora, se analisarmos bem, já havia sinais que anunciavam a grave crise democrática que ocorreu posteriormente (logo após terminar esse livro, decidi começar a grande obra sobre Mussolini e o fascismo). Ainda assim, as condições de vida nas quais minha geração viveu até agora são as melhores já experimentadas pela humanidade. O declínio atual dessas condições, somado ao vazio de uma liderança política progressista digna de confiança e carismática, exige que intelectuais, escritores e artistas assumam um papel de suplência.
– A Einaudi tem uma presença constante e quase mítica no livro. O que essa editora representava para você quando estava crescendo e decidindo ser escritor? O que ela representa hoje na Itália e no mercado editorial europeu?
Sim, a editora Einaudi faz parte integrante de um mito cultural intimamente ligado ao mito da resistência, ou seja, ao relato fundacional da democracia antifascista italiana. Hoje, resta muito pouco dessa lenda.
– A família Ginzburg é, obviamente, importante para você, intelectualmente. Esse tipo de junção que você faz em seus livros, unindo história e ficção, grandes episódios históricos com histórias afetuosas sobre sua família (neste livro em particular) – quanto disso é inspirado na obra de Carlo Ginzburg? Que outras obras o inspiraram na busca por esse tipo de escrita?
O que foi realmente importante para mim foi a possibilidade de narrar em paralelo a história dos Ginzburg, representantes da aristocracia cultural italiana, e a história dos Scurati/Ferrieri, gente humilde, pessoas comuns, do povo. Conseguir fazê-los se encontrar no terreno da humanidade compartilhada, mesmo que, ao longo de suas trajetórias históricas e biográficas, nunca tenham se cruzado. A micro-história de Carlo Ginzburg certamente foi uma inspiração para mim, como para muitos outros, mas eu continuo sendo um filho do povo. Não venho de uma família de intelectuais; fui o primeiro universitário formado da minha estirpe. E faço questão de ressaltar isso. A tradição precisa ser constantemente reinventada, não deve nos aprisionar em privilégios de nascimento, elitismos culturais ou linhagens nobiliárquicas.
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