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Notícias d’Além Mar: Por que publicar autoria brasileira em Portugal?

07 de janeiro de 2025
5 min de leitura
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Jaime Mendes apresenta os números do mercado editorial português em 2023 e fala sobre as oportunidades de publicação brasileira no país

O Instituto Nacional de Estatística de Portugal (INE) divulgou os dados relativos à Cultura para o ano de 2023. Para a área do livro os números são os seguintes:

Foram publicados 12.299 títulos, dos quais 10.606 eram primeiras edições (86,2%) e 1.693 reedições (13,8%), de 9.283 autores. Do total de títulos, 8.755 (71,2%) eram originais e 3.537 (28,8%) traduções. Sete títulos não foram classificados.

Como se pode ver nos quadros abaixo, há uma queda na quantidade de títulos em relação a três dos quatro anos anteriores. 2020 foi o ano da pandemia.

Em Portugal é obrigatório, por Lei, que uma publicação tenha um número de Depósito Legal, que é atribuído pela Biblioteca Nacional, e que vai impresso nos livros. Sem esse número uma gráfica não pode imprimir. Mesmo que a impressão seja feita no exterior, se a editora estiver domiciliada em Portugal, há que ter o número de Depósito Legal. Também por isso a BN é uma fonte precisa. A Biblioteca Nacional recebe 11 exemplares de cada livro impresso para efeitos de Depósito legal.

Há que se lembrar sempre do tamanho de Portugal na comparação com o Brasil. Só temos uma ideia mais clara do tamanho do Brasil quando saímos dele. Portugal tem a mesma área geográfica do estado de Pernambuco e a mesma população de cerca de 10 milhões de habitantes.

Existem 518 editoras e 612 livrarias e alfarrábios (sebos) registrados na Autoridade Tributária, o equivalente da Receita Federal. Acho que o estado de Pernambuco não tem esses números. Calma, não se animem tanto, que o mercado é pequeníssimo na comparação com o mercado no Brasil. Foram 188 milhões de exemplares vendidos no Brasil e 13 milhões de exemplares vendidos em Portugal em 2023, considerando apenas o mercado, sem venda ao governo. Isso dá apenas 7% (sete por cento).

Para evitar importar pela Saudade Distribuidora títulos brasileiros que já estejam publicados em Portugal, faço um levantamento permanente do que é publicado por aqui. Assim, para o ano de 2023 cheguei ao número de 57 títulos brasileiros publicados por editoras comerciais portuguesas. Não entram nesta contagem as editoras brasileiras Urutau, Gato Bravo ou Kotter por exemplo, sediadas em Portugal e que publicam aqui seus originais. Se pensarmos nos 12.299 títulos publicados em 2023 em Portugal, esses 57 títulos representam apenas 0,002%. Digamos que o levantamento esteja muito falho. Multiplique-se por três e teríamos a representatividade de 1,39%. Continuaria ínfimo para a disponibilidade que existe no Brasil.

Portanto, é com o objetivo de aumentar a representatividade da autoria brasileira em Portugal que a Língua Mátria Editorial começa a sua atividade agora em 2025.

Assim como o Brasil, Portugal também é um país onde o racismo está muito presente em grandes segmentos da sociedade. Concomitante a isso, ainda está muito impregnado, em grandes setores da sociedade portuguesa, a visão colonial e de metrópole. Os livros didáticos ainda trazem essa visão. A discussão e produção brasileira é pujante sobre essas temáticas e está muito avançada, na comparação com a produção e disponibilidade em Portugal.

Abrir uma editora não é somente um negócio. Também é uma escolha de como estar no mundo, como agir e interagir. É mais fácil fazer uma revolução do que mudar mentalidades.

A Língua Mátria vai publicar somente livros que foram escritos em português, não importa o país/território de origem. Como já disse José Saramago, “existem línguas em português”. É em respeito a esta diversidade cultural e a esta diáspora da língua que a Língua Mátria vai publicar seus livros sem fazer traduções e/ou adaptações na forma, no estilo, na sintaxe e na ortografia do texto original concebido por quem o escreveu. As palavras faladas e as palavras escritas têm diversos lugares de origem e estão impregnadas de cultura e de história. Acreditamos que é preciso preservar a identidade, a essência e a vivência singular de quem as profere ou escreve.

A Língua Mátria vai privilegiar algumas temáticas na sua linha editorial, tais como: antirracista, anticolonial, gênero, palavra de mulher e temas “tabu” marginalizados e invisibilizados como loucura e maternidade, por exemplo, além de pequenas joias literárias que podem não se enquadrar exatamente nestas temáticas principais.

Neste momento, temos seis títulos já com contratos de edição assinados. A previsão é que estejam publicados até maio de 2025, para estarem presentes na principal feira do livro de Portugal, a de Lisboa, que vai acontecer entre os dias 4 e 22 de junho deste ano.

Para a temática antirracista será publicado o livro Áurea, de Henrique Rodrigues. Com a temática anticolonial o livro Lugares de origem, de Ailton Krenak e Yussef Campos. Para os temas marginalizados temos três títulos. De Vanessa Passos, o livro A filha primitiva que aborda questões da maternidade e da mulher. De Marcela Dantés, os livros João Maria Matilde e Vento Vazio trazem novas luzes sobre a loucura. A negociação para os livros da Marcela foi realizada com a mediação da agência literária LVB&Co. que, logo na primeira conversa, gostou e acreditou no projeto da Língua Mátria. E, vindo das Minas Gerais, lugar de diamantes e ouro já conhecidos em Portugal, temos uma joia literária que também precisa ser conhecida por aqui: Tardes brancas, de Afonso Borges.

Só com a circulação de diferentes ideias, diferentes histórias e estórias, diferentes culturas e diferentes visões de mundo é que uma sociedade democrática pode existir. A luta é diária e os livros ainda são fundamentais para tal.

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Jaime Mendes
Jaime Mendes

Desde janeiro de 2020 Jaime Mendes reside em Portugal e é um dos sócios fundadores da Saudade Livraria e Distribuidora, empresa com operações no Brasil e em Portugal. A Saudade tem...

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