Quando a morte vem em hora errada
No livro de Jairo Carmo, personagem revive memórias e enfrenta seu presente
“A morte veio em hora errada” – esta reflexão poderia atravessar o pensamento de vários personagens do segundo romance de Jairo Carmo. Caleidoscópico, Belas viúvas (7 Letras, 184 pp, R$ 79) cruza tempos e espaços (do interior da Amazônia ao Rio de Janeiro, passando por Brasília; da década de 50 à passagem de 1984 a 1985) para exprimir o caráter frágil de nossa existência neste mundo. Quem protagoniza realmente estas páginas é Marta Benício, figura complexa e cativante, que não tendo mais ao seu lado o companheiro de uma vida, Aníbal Pinheiro, revive memórias e enfrenta seu presente. Por meio de uma linguagem precisa, com gosto pelo aforismo, Jairo Carmo envolve o leitor na trajetória dessa mulher que não teme encarar os cantos obscuros de seus sentimentos, vivendo com intensidade, dentro dos limites definidos por sua época. É também para ela que Belas viúvas se volta, aprofundando-se no papel subjetivo e social da religião e trazendo à tona, sem rodeios, a violência ditatorial que tanto marcou a história do Brasil.
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