Publicidade
Voltar COLUNAS

Dar voz ao silêncio: narrativas sobre mães que não souberam amar

15 de setembro de 2025
2 min de leitura
Cibele Laurentino, autora de
Cibele Laurentino, autora de

'Eu, inútil' é um livro que olha de frente para o impacto psicológico da maternidade narcisista, mas sem reduzir sua personagem à dor

Em Eu, inútil (Ases da Literatura), Cibele Laurentino nos apresenta Madalena, uma personagem que, antes de se reconhecer como alguém no mundo, foi nomeada pelo abandono. “Inútil”, era assim que a mãe a chamava, não como adjetivo passageiro, mas como identidade imposta. E o romance nasce justamente daí, da urgência de desatar essa palavra do próprio corpo.

Este não é um livro fácil, mas é necessário. Porque Cibele escreve sobre feridas que muitas mulheres escondem, ou sequer sabem nomear. Escreve sobre as violências silenciosas dentro das casas, as cicatrizes deixadas por mães que não souberam amar, sobre as palavras que moldam o modo como nos enxergamos e nos relacionamos com o mundo.

O romance de formação aqui é também um romance de deformação: acompanhamos uma infância atravessada por negligência, o atraso escolar, a ausência do pai, os traços de uma autoestima esfarelada. Madalena demora a entender que não é aquilo que lhe disseram que ela era. E o percurso da narrativa é justamente essa reconfiguração de si, uma tentativa dolorosa e bonita de se reconstruir.

Cibele Laurentino, que também é cordelista, poeta e ativista cultural, carrega em sua escrita o peso do Nordeste, da oralidade, da luta de mulheres que resistem dentro e fora do silêncio. Seu texto tem ritmo, tem corte e tem afeto, mesmo quando fala da falta dele.

Eu, inútil é um livro que olha de frente para o impacto psicológico da maternidade narcisista, mas sem reduzir sua personagem à dor. Porque Madalena também é desejo, é corpo, é tentativa, é busca.

Para quem trabalha com literatura é impossível ignorar a importância de livros como esse no nosso mercado literário. Obras que dão voz a experiências silenciadas, que não se encaixam em fórmulas prontas, mas que atravessam o leitor com força e verdade. Cibele entrega uma estreia ficcional no romance de forma profunda, honesta e visceral.

Livro indicado:

Eu, inútil, de Cibele Laurentino

Editora: Ases da Literatura

Compartilhar:
Vanessa Passos
Vanessa Passos

Vanessa Passos é escritora, roteirista, professora de escrita criativa, doutora em Literatura (UFC) e pós-doutora em Escrita Criativa (PUCRS), sob orientação de Luiz Antonio de Ass...

Ver todos os artigos →

Leia Também

Gostou deste conteúdo?

Receba análises exclusivas como esta toda semana no seu email

Toda segunda e quinta
Publicidade