Bestiário radical revisita o marxismo a partir das pegadas felinas
Livro da professora Leigh Claire La Berge chega ao Brasil em janeiro, propondo uma leitura interespécies da história econômica ocidental
Em um momento histórico marcado por colapso ambiental e avanço de discursos autoritários, a Boitempo traduz para os leitores brasileiros Marx para gatos: um bestiário radical (Boitempo), da professora e doutora em literatura Leigh Claire La Berge. O livro propõe uma leitura tão erudita quanto provocadora do pensamento marxista.
Revisando o formato dos antigos bestiários, a autora segue pegadas felinas deixadas ao longo da história econômica do Ocidente para revelar uma animalidade no coração do marxismo. O livro chega às prateleirads na sexta-feira, 9 de janeiro próximo, marcando a estreia de La Berge no mercado editorial brasileiro.
Na orelha da obra, o antropólogo Jean Tible sintetiza o espírito do ensaio: “Em tempos de apocalipse climático e fascismo rampante, comunismo interespécies”. A partir dessa chave, La Berge constrói um arco histórico que atravessa mais de mil anos — da pré-história do capitalismo, passando por suas fases colonial e imperial, até as revoluções burguesas que o sustentaram e as revoluções comunistas que a ele se opuseram. Nesse percurso, demonstra como os gatos foram compreendidos, reiteradamente, como criaturas de viés libertário.
“Esta é menos uma história radical de uma única espécie que uma história de como os felinos e os humanos transformaram uns aos outros em seres radicais — radicalmente progressistas e radicalmente conservadores”, escreve a autora, ao articular economia política, história cultural e estudos animais. O livro explora, por exemplo, o papel simbólico dos leões — cuja bravura foi frequentemente exaltada por reis e imperadores — e a presença dos gatos selvagens em instituições financeiras, além de mapear como os felinos também inspiraram lutas, partidos e movimentos políticos.
Ao longo do ensaio, La Berge revisita conceitos centrais do pensamento de Karl Marx (1818-1883) e argumenta que os felinos ocupam um lugar relevante na maneira como marxistas imaginaram a economia. Ao perguntar o que humanos e animais devem uns aos outros em um cenário de crise ecológica global, Marx para gatos se insere diretamente nos debates contemporâneos sobre ecossocialismo. Neste bestiário radical ilustrado, a luta de classes surge, em última instância, como uma colaboração entre espécies.
Professora de inglês na City University of New York, Leigh Claire La Berge é autora de Wages against artwork e Fake work: how I began to suspect capitalism is a joke — nunca traduzidos para o português. Em Marx para gatos: um bestiário radical, Leigh consolida uma trajetória intelectual que cruza crítica literária, teoria marxista e reflexão sobre o capitalismo tardio — agora apresentada, pela Boitempo, ao público brasileiro.
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