O patetismo como arma de sedução
Romance mescla episódios da infância e juventude com outros da carreira do escritor Juan José Millás
Há uma cena em O mundo (Planeta do Brasil, 216 pp., R$ 44,90), do espanhol Juan José Millás, em que, após uma crise de pânico, o narrador-escritor foge de uma festa na casa de seu editor e se abriga num táxi, onde, ainda sob efeito de haxixe, álcool e ansiolíticos, faz o taxista rabugento chorar, ao dizer que Deus não está contra ele, que a loucura do jovem filho do motorista não aconteceu “para amargurar a existência dele e da mulher”. Diante de tal cena, certamente os leitores mais suscetíveis se emocionarão e acreditarão estar diante de um escritor sensível. A facilidade do livro de Millás, ademais do estilo límpido do autor, está no seu gênero híbrido. O romance de tintas autobiográficas mescla episódios da infância e juventude com outros da carreira do escritor, num procedimento semelhante ao de Paulo Coelho, em alguns de seus livros, de ser, a um só tempo, escritor, narrador e personagem.
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