Nelson Rodrigues nunca foi cronista
Em livro controverso e instigante, crítico Luís Augusto Fischer defende que autor na verdade escrevia ensaios
A classificação dos gêneros literários é, sob todos os aspectos um assunto melindroso, primeiramente pelo que há de tangências e interpenetrações entre eles, depois, pela dificuldade em se estabelecer a importância ou a necessidade da própria classificação. Uma coisa, no entanto, é indiscutível: não há nem nunca houve cultura sem classificação, quer pensemos nas ciências naturais ou outras, quer tratemos das artes, logo, da literatura. Talvez o mais prestigioso exemplo da dificuldade classificatória seja, entre nós, Os sertões, concomitantemente narrativa militar, ensaio, poema geográfico, livro de história, epopeia. Em Inteligência com dor: Nelson Rodrigues ensaísta (Arquipélago, 336 pp., R$ 39), Luís Augusto Fischer defende uma tese no mínimo controversa, a de que as crônicas de Nelson Rodrigues seriam ensaios, mais do que crônicas. Com um estilo de grande agilidade, livre de toda e qualquer pedanteria acadêmica, o autor passa por alguns dos momentos inarredáveis na estruturação dessa ideia, ou seja, a classificação do que seria o ensaio, de Montaigne até agora; a definição do que seria a crônica; as similitudes e dessemelhanças entre os dois gêneros.
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