Literatura une censor e censurado na África do Sul
Em 2008 Coetzee descobriu arquivos secretos com informações de três de seus livros, que só podiam ser lidos em seu país depois de aprovados pela censura
Quando os regimes totalitários sucumbem, às vezes deixam, sem querer, pistas documentais que revelam o sombrio ofício da opressão. Assim foi com o Nobel sul-africano de Literatura J.M. Coetzee, como ouviu recentemente uma plateia na Universidade Americana de Paris, quando ele contou suas experiências. “Até quando eu tinha 50 anos, meus livros só podiam ser lidos por meus compatriotas sul-africanos depois de terem sido aprovados por um comitê de censores”, disse Coetzee, 70. Mas só por volta de 2008 um pesquisador acadêmico se ofereceu para mostrar a ele arquivos que havia descoberto, relativos a três obras do escritor na década de 1970 e começo da de 1980. Esses censores sul-africanos eram acadêmicos – colegas, suspeitava Coetzee, que em casa ouviam Mozart enquanto liam Austen e Trollope, e que acreditavam estar “fazendo um bom trabalho”. Os leitores secretos, disse Coetzee, se viam como “um certo tipo de herói anônimo”. “Os censores que liam os meus livros viam a si mesmos como guardiões da República das Letras também”, disse Coetzee à plateia. “Aos seus olhos, eles estavam do meu lado.” (The New York Times)
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