O livro antes de ser livro (Parte 1)
Na coluna de hoje, Cindy volta à primeira enquete “O que você faz no trabalho” e começa a explicar o funcionamento de um departamento editorial
Voltando à coluna inicial e à primeira enquete, a coluna de hoje expõe as respostas que recebi e que respondem à recorrente, e incômoda, pergunta direcionada aos funcionários de departamentos editoriais (ao menos, das editoras de livros): afinal, o que você faz no trabalho?
Para não ficar um texto extremamente longo e cansativo, dividirei a coluna em duas partes, e as chamarei de O livro pré-editorial e O livro do editorial, respectivamente.
O livro pré-editorial
Todas as respostas que recebi marcam o começo do trabalho editorial na aquisição do conteúdo a ser publicado. O que me leva a crer que, apesar de essa aquisição não ser feita necessariamente pelo editorial (há casos em que a aquisição é feita diretamente pela presidência ou pelo departamento comercial ou de marketing), essa é considerada uma etapa fundamental para o sucesso da produção de um livro – sem autor, não há editora. Essa etapa se subdivide em pelo menos três outras: escolha do conteúdo, negociação dos direitos autorais e assinatura do contrato de edição entre autor/agentes e editora.
Após isso, temos certa diferenciação entre o processo de edição de obras de autores nacionais e internacionais. Principalmente porque a obra do autor nacional pode estar ainda em processo de elaboração e escrita, enquanto a do autor internacional muitas vezes está publicada em algum país ou possui ao menos arquivos finais que possam ter sua tradução para o português iniciada.
O editorial, em ambos os casos, foi indicado como o departamento responsável pelo contato com autor/agentes para o delineamento de prazos. Em alguns casos, o editorial pode inclusive agir como um facilitador para que o autor consiga mais rapidamente autorizações ou qualquer outro serviço de que necessite para finalizar seu trabalho e entregar seus originais completos para a editora.
Muitas editoras só iniciam seus trabalhos editoriais depois de receber os originais completos do autor/agentes, porém não são raros os relatos de produções paralelas, principalmente nos casos em que a data de lançamento é marcada durante a aquisição do conteúdo. Isto é, por exemplo, enquanto o autor escreve o capítulo 2, o editorial inicia o trabalho no capítulo 1, e assim sucessivamente. Esse caminho é extremamente arriscado, pois o autor pode decidir mudar algo feito no capítulo 1 após esses trabalhos, e assim gerar retrabalho (que por sua vez gera desperdício de tempo e recursos, inclusive – ou até principalmente – humanos).
A próxima coluna irá detalhar exatamente o que seria este trabalho.
Ah, e como diria Steve Jobs, “one more thing”: Como muitas respostas citaram a palavra “correria” e disseram algo como “muitos desses processos quase nunca ocorrem de forma ideal”, acho importante ter em mente que a maior parte das editoras (pequenas, médias ou grandes) está sempre trabalhando em dezenas de livros ao mesmo tempo para cumprir suas metas de produção mensal de títulos, que pessoalmente já vi variar de 3 a mais de 20 por mês (sim, mais de 1 por dia útil). Esse tema é abordado no simpático livro Livros demais!: sobre ler, escrever e publicar (Summus, 2004), de Gabriel Zaid.
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