Um surto de arte
Um ano depois de sua trágica morte, o escritor e pintor esquizofrênico Rodrigo de Souza Leão renasce com novo romance, 35 telas e reedição do livro de estreia
“Só vou morrer se eu ganhar o Nobel”, escreveu Rodrigo de Souza Leão, aos 43 anos, na superfície do último óleo sobre tela que pintou, em 2009. Depois de 20 anos sem sair de casa — exceto quando arranjava uma namorada (via telefone ou e-mail), e os pais o levavam às respectivas alcovas —, ele enfim cedera: começara a frequentar as aulas de João Magalhães no Parque Lage. A produção de telas aumentou até atingir 35, algumas de grandes dimensões. A produção literária também: um ano transcorrido do sucesso cult e da fortuna crítica de Todos os cachorros são azuis (7Letras) — livro que narra o surto em que se manifestou sua esquizofrenia, aos 23 anos —, estava prestes a concluir um romance novo, de fôlego, Me roubaram uns dias contados (a ser lançado no próximo dia 2, primeiro aniversário de sua morte, pela Record). “O trabalho do Rodrigo mistura mundo interno e externo de maneira radical. É uma escrita feroz. O cara não brincava em serviço, não escrevia por charme ou pedantismo. Escrevia com imensa coragem, para resistir à loucura, e para existir”, reflete o crítico José Castello. Uma vez pronto o novo livro, Rodrigo parou de tomar os remédios e passou a escondê-los dentro do computador. Em abstinência, então, soube que a autora Glória Perez ia estrear uma novela com um personagem esquizofrênico. Fez chegar às mãos dela Todos os cachorros são azuis. Quando a novela foi ao ar, e Tarso fez, pela primeira vez, referência a um chip implantado em seu cérebro, Rodrigo se inquietou. Furioso, escreveu uma carta aberta a Glória, publicada no Jornal do Brasil. Mas não chegaria a vê-la impressa. Pediu para ser internado. Uma semana depois, morreria, vítima de uma parada cardíaca.
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