Em Paraty, de olho no chão
Apesar do aconchego, caminhar pelo piso de pedra da cidade é um desafio. Este é um problema que deve ser encarado com seriedade, já que é grande o risco de acidente
Em Paraty, durante cinco dias de grande agitação de pedestres, pode-se ver e viver momentos raros, quase inexistentes hoje em dia em nossas grandes ou médias cidades: o movimento intenso de gente que passeia para lá e para cá, sem rumo certo, como no antigo footing das cidades do interior. Gente de todas as partes, por todo o lado, num conversê sem-fim, usando a cidade como palco maior de encontros, assim como sempre deveria ser. Entretanto, passear por Paraty é um desafio. É como saltar de pedra em pedra – escolhendo as alpondras – na travessia de um rio ou riacho. Imagino que todos nós já tivemos essa experiência pelo menos uma vez na vida: ou você acerta a pisada, ou vira o pé, escorrega e cai, se molha, enfim, se dana. Numa cachoeira se espera isso, numa cidade é inadmissível. O piso de Paraty é restritivo, desconfortável, impróprio para caminhar. E o que dizer dos carrinhos de bebê, das muletas, bengalas e cadeiras de roda? A maioria das cidades históricas da Itália, Espanha ou Portugal possuem ruas de pavimento regular, carroçável e seguro, muitas vezes feitos com materiais modernos como o concreto ou o asfalto. E isso não configura pecado ou heresia contra o “sagrado patrimônio histórico”. Vide Assis, Évora, Toledo. De que serve o patrimônio se não pode ser de todos e para todos? (*Marcelo Ferraz é arquiteto)
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