Uma conversa entre amigos onde todos perguntaram à vontade
Mia Couto e José Eduardo Agualusa, convidados da Bienal, deram uma esticada até a Livraria da Vila na última segunda-feira (23)
Um jeito bom de comandar um bate-papo entre dois escritores, especialmente se eles forem bons e velhos amigos: um apresenta o outro e o mediador já abre para as perguntas do público (e só vai contornando os brancos da plateia). Afinal, não é para conversar com seus leitores que eles estão ali? Pois foi o que fez Rita Chaves na noite desta segunda-feira (23), na Livraria da Vila da Fradique, em São Paulo.
Depois que José Eduardo Agualusa apresentou Mia Couto e este retribuiu as gentilezas, ela, vendo o público que lotava o auditório e o café (de onde assistiam pelo telão) ainda meio tímido lançou a primeira pergunta e o que se seguiu foi uma conversa muito tranquila. Falaram da África, dos personagens, da motivação para escrever, das influências, da língua comum, de mulheres e do que mais ia surgindo, inclusive o ato de sonhar.
Mantendo o discurso de que não é escritor, mas “está escritor”, o biólogo Mia Couto disse: “Escrever é uma espécie de casa que eu visito, mas não posso morar lá. Se eu morar lá, eu morro”. Para ele, a escrita é algo central, uma vertigem que sente que se ceder não vai mais poder voltar atrás. Ele lembrou a fala de alguns escritores que dizem que se não escreverem morrem. Ele não quer viver assim dependente e por isso segue com seu trabalho de biólogo, professor, jornalista…
“Escrevo porque sou feliz e porque me faz feliz”, comentou. Entretanto, disse que para criar uma história tem que estar “em condição de doença e de tristeza”. A normalidade, de acordo com ele, não acha nada estranho e as pessoas normais estão formatadas para não se espantarem. “Para escrever, tenho que estar em condição de tristeza. Minha família já sabe como é e não tenta me retirar dela. É uma espécie de janela, uma carência que me convida a sair de mim e escrever”. E completou: “Somos todos um pouco doentes”. Ele comentou que não há história na felicidade. “O ‘e foram felizes para sempre’ acaba com qualquer história. Não há mais o que contar depois disso”.
Com Agualusa não é bem assim. Para escrever, o angolano precisa de paixão e, espirituoso, disse que escreve também movido a curiosidade. “Escrevo para saber como a história vai acabar. Se já soubesse, não escreveria. Seria sem graça”.
África
Sobre a pressão que sofre o escritor africano, obrigado a sempre retratar a sua terra, Agualusa disse: “O escritor sai do quintal e é cobrado por isso. Há quem diga que ele é alienado por escrever sobre uma realidade que não é sua. O que o escritor africano reivindica é uma coisa muito simples que é o direito de ter um mundo”. Ele lembrou ainda de uma vez que disse, em Portugal, que era feliz. Nunca foi perdoado por isso.
Mia Couto, mais velho do que o seu país, contou, sem saber se com orgulho ou não, que foi um dos autores do hino de Moçambique. Ele e mais alguns músicos e intelectuais foram intimados a se isolar em uma mansão para criá-lo. “Era 1982, estávamos em guerra e não tínhamos o que comer. Aquilo foi ótimo. Nossa família vinha comer no fim da tarde e só trabalhávamos quando ouvíamos as sirenes das viaturas dos militares”, brincou.
Sonhos
Agualusa contou que é um sonhador e que dormindo lhe surgem inícios e desfechos de histórias, personagens, títulos de livros e poemas. “Às vezes, quando a gente acorda aquilo não é tão genial quanto parecia quando estamos sonhando”, disse. E contou de uma manhã em que a memória de um verso que ele tinha sonhado voltou enquanto fazia a barba. Ao correr até o criado-mudo, encontrou escrito no papel que mantém ao lado da cama: “O pepino é azul”. Ele guarda de um sonho o título para um livro que deve escrever com Mia Couto. Vai se chamar, até segunda ordem, “O vosso chão é o nosso céu”.
Matar personagens
Para dar espaço a novas histórias, Mia Couto mata seus personagens assim que o livro é lançado e nem se lembra mais deles. Na conversa mesmo disse que nunca usou pessoas reais em seus livros e foi desmentido pela mediadora. Rindo, comentou: “Vão achar que não fui eu que escrevi”.
“Os personagens têm um efeito perverso sobre nós. Eles querem que a gente volte a eles e é por isso que faço o ritual de esquecer”, contou.
Sobre misturar sua própria história a de seus personagens, disse achar que os livros são sempre sobre ele. Há personagens mais ou menos parecidos, mas sabe ao acabar o livro era ele ali. Mwanito, o menino sem qualquer registro do lado de lá de Jesusalém, em Antes de nascer o mundo, tem muita relação com ele, confessou.
Mulheres
Perguntados sobre a frequente presença de mulheres em sua obra, Mia Couto respondeu: “Essa voz é a voz da minha mãe, das histórias que me chegavam por ela. Peço desculpas por não ter resposta menos infantil”. Para Agualusa, isso é natural, já que as pessoas mais importantes de sua vida são mulheres.
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