Termina a festa em Póvoa
E o curador Francisco Guedes já inicia a procura por novos autores para a próxima edição
Há 11 anos, o Correntes d´Escritas – Encontro de Escritores de Expressão Ibérica é conduzido por Francisco Guedes, idealizador, organizador e curador. Sua missão é escolher e divulgar o trabalho dos melhores escritores de literatura em línguas portuguesa e hispânica. Não precisa ser grande vendedor de livros, tem que ter qualidade literária – esse é o critério.
Todos os anos, assim que o festival termina, Francisco começa a ler e conversar com seus amigos escritores ao redor do mundo pedindo indicações. É espantosa a variedade de escritores do México, Panamá, Uruguay, Colômbia – 50 ao todo – desfilando pelos corredores do hotel que abriga a todos em Póvoa de Varzim. Faz pensar o quanto nós, brasileiros, precisamos descobrir e valorizar a literatura daqueles que compartilham conosco o idioma e a herança histórica.
Quem é convidado para vir a Povoa não gasta tostão. Tudo é financiado pela organização do festival, inclusive as bebidas – sempre bons vinhos em fartura. O evento, da mesma forma, é totalmente gratuito e aberto ao público. Há ônibus para conduzir os convidados de um lado a outro da cidade, onde acontecem os eventos – o Casino de Povoa, o Auditório Municipal – e aos restaurantes, excelentes, onde todos comem juntos e as conversas literárias são da melhor qualidade. Nessas horas, conhecemos jornalistas, editores, escritores e professores de toda parte. Inclusive editores e diretores de grandes grupos editoriais europeus, que comparecem com os olhos e ouvidos bem abertos.
A comida é sensacional, muitos frutos do mar, pois Póvoa de Varzim é uma cidade de veraneio e está na beira da praia. Mas o tempo é totalmente invernal, com chuva de vento e ocasionalmente granizo.
À noite, após o jantar no restaurante do hotel, todos se reúnem para leituras e lançamentos de livros. A alegria e o prazer de viver intensamente a literatura durante esses dias está estampada nas faces de todos. É uma felicidade, o Correntes d´Escritas.
Destaques
A 6º mesa do Correntes D´Escritas, com o tema “O poeta é um predador”, lotou o Auditório Municipal de Póvoa de Varzim. Havia gente nas escadas, de pé, ocupando todos os espaços. O poeta Ivo Machado, nascido nos Açores, agradeceu a presença dos jovens de 13 a 18 anos, que se misturavam ao publico. Com voz de timbre impressionante, ele falou sobre como os políticos têm o costume de se apropriar dos versos dos poetas, pois sabem o quanto “a palavra pode matar”.
O poeta e romancista valter hugo mãe (se escreve assim, em caixa baixa) – que disputa corpo a corpo o prêmio Simpatia com o editor e escritor Francisco José Viegas – emendou: “se o meu GPS falasse com a voz do Ivo Machado, eu não me perderia nunca!”
Houve o lançamento de O terceiro Reich, de Roberto Bolaño, pela editora Quetzal, dirigida por Francisco José Viegas. O local escolhido era o Bar da Praia, uma boate no calçadão à beira mar em frente ao hotel onde se hospedam os participantes do evento. À meia-noite, horário marcado, os convidados adentraram o recinto e se depararam com um karaokê aos berros e toda a juventude de Póvoa de Varzim. Houve quem desse meia-volta e partisse em retirada, mas os mais aventureiros ficaram e puderam ouvir o breve discurso de Viegas, apresentando o livro, e dançaram até as sete da manhã.
Algumas presenças marcantes no evento foram duas das mais importantes poetas portuguesas vivas: Maria Teresa Horta – esta, um expoente do feminismo em Portugal – e Ana Luísa Amaral, cujas obras completas estão reunidas em grandes volumes publicados pela Dom Quixote (Grupo Leya). Também o escritor português Manuel da Silva Ramos, que durante sua participação em uma das mesas leu um texto comparando a escrita à exploração de galerias em uma mina e, para isso, vestiu capacete de mineiro com uma lanterna na testa.
Vale dizer que o Correntes D´Escritas, desde sua primeira edição há 11 anos, é financiado em sua quase totalidade com os recursos da Câmara Municipal de Póvoa de Varzim, cujo orçamento anual para Cultura é quase todo investido no evento.
O vereador Luís Diamantino Carvalho Batista, responsável, junto com Francisco Guedes, pelo sucesso e permanência da iniciativa, é brasileiro. Nasceu e morou grande parte da infância em Manaus, Amazonas: “Nós comíamos mangas e goiabas arrancadas dos pés, nadávamos nas águas barrentas do Rio Amazonas, escavávamos ovos de tartaruga para comer batidos com açúcar”. Seus olhos brilham e o sorriso se abre ao falar do Brasil, para onde, desde os 13 anos, nunca mais voltou.
Leia sobre a participação de Zuenir Ventura no evento.
Valéria Martins, jornalista e agente literária, é convidada do Correntes D´Escritas 2010. Mantém o blog www.pausadotempo.blogspot.com
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